A consultoria Deloitte lançou um alerta sobre o impacto devastador da quebra de confiança na motivação dos funcionários. Segundo Simona Spelman, líder da prática de Capital Humano da Deloitte nos EUA, a confiança é um elemento crucial para o engajamento e a produtividade, sendo composta por quatro pilares: confiabilidade, transparência, capacidade e humanidade.
Spelman destacou, durante o Fortune Most Powerful Women Summit, que a confiança, embora possa parecer um termo "suave", tem o poder de impulsionar ou frear o avanço das empresas. A complexidade aumenta com a adoção de inteligência artificial (IA) e as consequentes demissões, que por vezes são atribuídas à substituição de pessoal por tecnologia. Manter o equilíbrio entre os quatro pilares é um desafio em constante evolução, especialmente à medida que as empresas se aprofundam no uso da IA.
O Impacto da Desconfiança na Motivação
Dados apresentados pela Deloitte revelam que 82% dos funcionários sentem-se motivados a dar o seu melhor quando confiam plenamente nos quatro pilares da liderança. No entanto, a desconfiança em apenas um desses fatores — seja na confiabilidade, transparência, capacidade ou humanidade — derruba essa taxa para 37%, uma queda superior a 50%. Com a desconfiança em dois fatores, a motivação cai para 28%, e quando todos os quatro pilares são abalados, apenas 7% dos funcionários se sentem motivados.
Por outro lado, 96% dos funcionários que confiam em seus líderes em todos os quatro aspectos demonstram alta motivação para o trabalho. Esse dado ressalta a importância crítica de uma gestão de confiança robusta e equilibrada. A análise sugere que a liderança precisa estar atenta a qualquer desvio em um dos pilares, pois isso pode desestabilizar toda a estrutura de confiança, mesmo que os outros aspectos sejam fortes.
O Papel da IA e a Oportunidade de Transformação
Jennifer McCollum, presidente e CEO da Catalyst, organização sem fins lucrativos focada em equidade de gênero e inclusão no local de trabalho, vê os períodos de grande transformação, como a ascensão da IA, como uma oportunidade significativa para construir ou destruir a confiança. Pesquisas da Catalyst indicam uma lacuna entre as intenções declaradas pelas empresas e a percepção dos funcionários. Enquanto 68% dos líderes afirmam ter planos de requalificação, apenas 34% dos empregados acreditam que as organizações oferecem treinamento em IA de forma acessível a todos.
McCollum também observou que apenas um terço dos funcionários percebe que suas lideranças agem com integridade durante disrupções nos negócios. Além disso, apenas 16% sentem que os líderes se mantiveram confiantes e apoiadores durante as mudanças impulsionadas pela IA. Esse cenário mostra que a forma como os líderes conduzem as transições é fundamental para a percepção de confiança.
Desafios Adicionais e o Valor do Capital Humano
Francesca Cornelli, reitora da Kellogg School of Management da Northwestern University, aponta que, à medida que a tecnologia e o conhecimento se tornam mais acessíveis, o diferencial competitivo das empresas residirá cada vez mais no "investimento nas pessoas, no capital humano". A forma como a IA é introduzida no ambiente de trabalho é crucial. Anúncios que focam apenas na simplificação de processos podem, inadvertidamente, gerar insegurança nos funcionários, que podem interpretar como uma mensagem de que "não serão mais necessários".
Para Cornelli, as pessoas se sentem mais engajadas quando a IA é apresentada como uma ferramenta para aprimorar o trabalho de todos, desde que o investimento no aspecto humano seja real. A simples retórica pode ser facilmente percebida como vazia. Spelman reforça essa ideia com um dado preocupante: cerca de 93% dos investimentos em IA são direcionados à tecnologia, enquanto apenas 7% vão para o lado humano. Essa desproporção indica uma falha em considerar o impacto da tecnologia na força de trabalho e no ambiente de trabalho.
Perguntas em Aberto e o Futuro da Liderança
À medida que a tecnologia se democratiza, as empresas precisarão se destacar por meio de "capacidades humanas duradouras como empatia, curiosidade e julgamento". A questão central que permanece é como as organizações conseguirão equilibrar efetivamente o investimento em tecnologia com o desenvolvimento e a valorização do capital humano. A capacidade de construir e manter a confiança em todos os quatro pilares será, portanto, um fator determinante para o sucesso e a sustentabilidade a longo prazo.
O futuro do trabalho exigirá lideranças que não apenas compreendam a tecnologia, mas que também priorizem o bem-estar e o desenvolvimento de seus colaboradores, garantindo que a transição para novas ferramentas seja vista como uma oportunidade de crescimento compartilhado, e não como uma ameaça. A forma como as empresas abordarem essa dualidade definirá sua resiliência e capacidade de inovar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





