Uma caverna na província de Yunnan, no sudoeste da China, está reescrevendo parte do que se sabia sobre os Denisovanos, um dos grupos de hominídeos mais enigmáticos da pré-história. Segundo reportagem da New Scientist, baseada em estudos publicados na revista Nature, o local forneceu um raro vislumbre do cotidiano dessa espécie, que ocupou a região por mais de 100 mil anos.

A escavação na caverna Bianfu é apenas o terceiro sítio arqueológico, depois da própria caverna Denisova na Sibéria e de Baishiya no platô tibetano, a oferecer um conjunto completo de evidências: restos humanos, artefatos de pedra, fósseis de animais e contexto ambiental. A análise dos achados sugere uma aparente contradição: os Denisovanos eram caçadores altamente eficazes, mas suas ferramentas de pedra eram surpreendentemente simples.

A tecnologia por trás da caça

Os pesquisadores encontraram 1.366 artefatos de pedra, incluindo raspadores e picadores, considerados rudimentares em comparação com a tecnologia desenvolvida por Neandertais que viviam na mesma época em outras partes da Eurásia. Essa simplicidade lítica, no entanto, contrasta fortemente com as evidências de suas presas. Ossos de veados, bovídeos e até rinocerontes, muitos de animais em seu auge físico, apresentavam marcas claras de abate, indicando uma estratégia de caça sofisticada.

O que explica essa discrepância? A hipótese levantada pelos cientistas é que a sofisticação tecnológica dos Denisovanos de Bianfu pode não ter se concentrado na pedra. A descoberta de sete ferramentas de osso no local, somada à possibilidade do uso intensivo de materiais perecíveis como madeira e bambu — abundantes na região —, sugere que o kit de ferramentas desses hominídeos era mais diversificado do que os registros arqueológicos costumam preservar. Sua habilidade, portanto, pode ter residido em materiais que o tempo apagou.

Um 'coração' para os Denisovanos?

O ambiente da caverna Bianfu também oferece pistas cruciais. Análises de pólen indicam que a área era uma mistura de floresta de coníferas e estepe, com clima temperado e farta vida selvagem. Este cenário é muito diferente dos ambientes extremos e frios da Sibéria ou das altas altitudes do Tibete, onde outros vestígios de Denisovanos foram encontrados. Locais como esses poderiam representar os limites de sua expansão territorial.

Para os pesquisadores, a leitura é que Yunnan pode ter sido parte do “coração” do território Denisovano, uma área central e ecologicamente estável. Em um ambiente com recursos abundantes, a pressão evolutiva para desenvolver ferramentas de pedra mais complexas pode ter sido menor. A adaptação, nesse caso, teria sido moldada pela oportunidade local, e não por uma trajetória tecnológica universal e linear.

As descobertas na China não apenas preenchem lacunas sobre como os Denisovanos viviam, mas também complexificam sua imagem. Longe de serem tecnologicamente “atrasados”, eles parecem ter sido um povo pragmático, cuja engenhosidade se adaptava de forma flexível aos diferentes ecossistemas que habitavam, desafiando nossas definições sobre o que constitui avanço tecnológico na história humana.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · New Scientist