Em maio de 2019, meses após o Deutsche Bank anunciar publicamente o encerramento de sua relação comercial com Jeffrey Epstein, e poucas semanas antes da prisão do financista, o ambiente interno do banco contava uma história distinta. E-mails internos obtidos pelo Departamento de Justiça dos EUA revelam que gerentes de conta continuavam a tratar Epstein como um cliente ativo, coordenando o status de contas que, teoricamente, deveriam estar fechadas. Segundo reportagem da Fortune, o executivo Stewart Oldfield chegou a questionar colegas sobre quais contas ainda estavam abertas, evidenciando uma desconexão profunda entre a narrativa oficial do banco e a prática operacional cotidiana.

A discrepância entre o discurso de conformidade e a realidade dos fatos coloca o Deutsche Bank sob um novo escrutínio regulatório. Em 2020, o banco afirmou a órgãos como o Departamento de Serviços Financeiros de Nova York (DFS) que a relação havia terminado em dezembro de 2018. Contudo, os registros mostram que o banco não apenas manteve os serviços ativos, mas também continuou a processar transações complexas e saques de dinheiro vivo para Epstein e seus associados muito além do prazo estipulado, levantando dúvidas sobre a integridade das declarações fornecidas por advogados e executivos da instituição.

A cultura da complacência institucional

A decisão do Deutsche Bank de aceitar Epstein como cliente em 2013, apesar de sua condenação prévia por crimes sexuais, foi um marco de falha de governança. O banco classificou-o como um cliente de "alto risco" e "Honorary PEP" (pessoa politicamente exposta), mas ignorou alertas internos e políticas de escalonamento para o comitê de risco reputacional. A análise dos documentos sugere que a receita gerada — estimada em milhões de dólares anuais — superou as preocupações éticas, criando uma estrutura onde o lucro justificava a manutenção de um cliente cujas atividades eram, no mínimo, opacas.

O caso do "Butterfly Trust", uma entidade criada por Epstein, ilustra essa permissividade. Mesmo com alertas de compliance apontando que beneficiárias do trust eram suspeitas de envolvimento em esquemas criminosos, gerentes de conta frequentemente descartavam as preocupações sob a justificativa de que aquele comportamento era "normal" para o cliente. Esse padrão de normalização de riscos extremos sugere que a cultura corporativa do banco estava profundamente comprometida, priorizando a retenção de um cliente sofisticado em detrimento de obrigações fundamentais de combate à lavagem de dinheiro.

Mecanismos de ocultação e falhas de controle

O modus operandi de Epstein dentro do banco envolvia o uso de múltiplas contas para movimentar fundos e realizar saques frequentes, muitas vezes abaixo do limite de 7.500 dólares para evitar escrutínio automático. A gestão dessas contas não era tratada como uma operação bancária comum, mas como um serviço de concierge de luxo. Funcionários do banco chegaram a coordenar saques de seis dígitos em dinheiro vivo, aceitando justificativas frágeis, como danos causados por furacões ou necessidades de construção, sem questionar a natureza real das transações.

A falha sistêmica também se estendeu à comunicação com os reguladores. Ao assinar termos de consentimento que atestavam o fim da relação em 2018, o banco assumiu uma responsabilidade jurídica direta. Especialistas em direito penal consultados pela Fortune indicam que, se for provado que os executivos sabiam que as informações eram falsas ou omitiram fatos materiais, a instituição e seus signatários podem enfrentar acusações criminais por falsificação de registros comerciais, uma vez que a intenção de enganar agências reguladoras é um crime grave sob a lei de Nova York.

Implicações para o setor financeiro e stakeholders

Este episódio serve como um alerta para o setor financeiro sobre os perigos da "cegueira deliberada". Quando grandes instituições financeiras permitem que clientes de alto patrimônio operem fora das normas de compliance, elas não apenas violam regulamentações, mas também se tornam facilitadoras de abusos. A tensão entre a autonomia dos gerentes de conta e as políticas de risco de compliance é um problema persistente que exige uma supervisão mais rigorosa por parte de órgãos reguladores globais.

Para os investidores e o público, a revelação de que o banco manteve o relacionamento até a prisão de Epstein em 2019, apesar das promessas contrárias, mina a confiança na capacidade de autorregulação das instituições. O custo dessa negligência foi alto: além de multas vultosas pagas aos reguladores, o banco enfrentou danos reputacionais significativos. O caso reforça a necessidade de que conselhos de administração e departamentos de compliance tenham independência real para interromper relações com clientes, independentemente do volume de receita gerado.

Perguntas sem resposta e o futuro da governança

O que permanece incerto é o nível de conhecimento da alta cúpula do banco sobre a extensão do relacionamento durante o período final. Embora o banco tenha investido em novos sistemas de controle e treinamento após o escândalo, a questão sobre quem, nominalmente, autorizou as prorrogações de prazo para o fechamento das contas de Epstein continua sem uma resposta definitiva. A responsabilidade pessoal dos executivos que assinaram documentos imprecisos permanece como um ponto de interrupção na narrativa de "lições aprendidas" que a instituição tenta promover.

O monitoramento dos próximos passos judiciais e de eventuais desdobramentos regulatórios será essencial para entender se o sistema jurídico americano tratará essas omissões como falhas procedimentais ou como crimes dolosos. A história do Deutsche Bank com Epstein demonstra que a governança corporativa não é apenas uma questão de manuais de conduta, mas de vigilância constante sobre os processos que, na prática, permitem que a integridade seja contornada em nome da conveniência. A transparência total sobre esse período ainda é uma dívida que a instituição precisa quitar com seus acionistas e com a sociedade. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune