Torsten Slok, economista-chefe da Apollo, lançou um alerta contundente sobre o frenesi em torno da inteligência artificial, em um momento em que Wall Street começa a reavaliar o setor. Slok argumenta que a premissa fundamental do otimismo em torno da IA — a demanda ilimitada por poder computacional — é falha. Segundo ele, o custo marginal de produzir computação supera o benefício que ela entrega aos usuários, levantando sérias questões sobre a necessidade e a sustentabilidade da construção massiva de data centers.
O Custo da Computação vs. Benefício Real
A análise de Slok foca na relação custo-benefício da IA. Ele observa que, até o momento, o retorno financeiro para as empresas que investem pesadamente em IA tem sido lento em se materializar. Isso sugere uma crescente relutância em pagar pelos serviços de IA, pois o "payoff" esperado ainda não se concretizou em escala. Para que as empresas continuem a investir em mais poder computacional, é crucial que esse investimento se traduza em aumento de receita, maiores lucros ou economias substanciais. No entanto, há poucas evidências de que isso esteja ocorrendo de forma generalizada.
Financiamento Circular e Dependência de Venture Capital
Outro ponto crítico levantado por Slok é a "circularidade" no gasto com tokens, um mecanismo de financiamento que levanta bandeiras vermelhas sobre a sustentabilidade do crescimento de algumas empresas de IA. Ele aponta que muitas startups de IA recebem financiamento ou garantias de dívida de empresas que também são seus principais clientes. Essa dinâmica, combinada com o fato de que 80% dos maiores gastadores em IA são empresas financiadas por capital de risco, sugere que o pagamento pelas contas de computação vem mais de rodadas de investimento do que de lucros orgânicos. Isso cria um ciclo onde o capital de risco sustenta o gasto em IA, em vez de um crescimento genuíno impulsionado pelo mercado.
Impacto Desigual e a Natureza do "Julgamento" em Negócios
Slok também destacou que o retorno financeiro da IA tem sido concentrado. Enquanto as gigantes de tecnologia, as chamadas "Magnificent Seven", têm visto um aumento em suas margens de lucro e receita por funcionário, o restante do S&P 500 não apresentou melhorias significativas. Isso indica que, para a maioria das empresas, a IA ainda é vista mais como um centro de custo do que como um motor de crescimento. O economista argumenta que, mesmo com a queda dos preços da computação, empresas convencionais podem ter dificuldade em usar a IA para impulsionar resultados financeiros. Ele ressalta que, embora a IA possa ser uma "calculadora excelente", a inteligência nos negócios frequentemente reside no "julgamento" — um atributo que envolve contexto, ética, confiança e nuances culturais, algo que a IA, em seu estado atual, ainda não compreende plenamente.
Dívidas Crescentes e Incertezas no Mercado
As preocupações de Slok surgem em um contexto de volatilidade no mercado de ações de IA e aumento dos custos de empréstimos. Gigantes como a Meta planejam gastos massivos em infraestrutura de IA, levando a um aumento significativo no custo de seguro de suas dívidas. Empresas menores de IA e provedores de infraestrutura de nuvem, como a CoreWeave, também enfrentam pressão, com quedas acentuadas no valor de suas ações e aumento nos swaps de inadimplência de crédito. A falta de transparência sobre estruturas de financiamento interconectadas entre grandes players e projetos menores de data centers adiciona uma camada de incerteza, pois pode haver mais dívidas em circulação do que o visível nas divulgações públicas.
O cenário desenhado por Slok sugere que a corrida pela IA pode estar entrando em uma fase de reavaliação, onde a promessa de retornos exponenciais precisa ser justificada por resultados financeiros concretos e sustentáveis. A dependência de capital de risco e a dificuldade em traduzir poder computacional em valor de negócio real são desafios que o mercado financeiro começará a precificar com mais atenção.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune




