“Estou apaixonado pelo seu formato”, teria dito Ed Sheeran a um míssil. A frase, uma paródia de seu maior sucesso, acompanha a charge do cartunista político Benjamin Slyngstad e captura o espírito da reação de parte da comunidade artística à mais recente controvérsia do astro pop britânico. A imagem é ácida, direta e resume a percepção de que a bússola moral do cantor estaria subordinada a um cálculo comercial.

A polêmica explodiu quando Sheeran removeu o rapper americano Macklemore como ato de abertura de sua turnê. O motivo: um discurso de Macklemore em apoio à Palestina e contra o que ele descreveu como um “genocídio em Gaza”. A decisão de Sheeran, vista como uma tentativa de evitar controvérsias e proteger sua marca global, gerou o efeito oposto. Nas redes, a crítica não veio apenas de ativistas, mas de outros artistas, que usaram sua própria arte para questionar a postura do colega. “Quem diria que sua música seria a segunda pior coisa sobre ele”, escreveu o cartunista Jesse Duquette, de Chicago.

O cálculo da neutralidade

O caso Sheeran é um estudo exemplar sobre os limites e pressões do ativismo de celebridades na era da polarização digital. Para um artista cujo apelo se baseia na universalidade e em temas inofensivos como amor e nostalgia, tomar um lado em um conflito geopolítico complexo representa um risco comercial imenso. A decisão de afastar Macklemore não foi um ato de discordância política, mas um movimento de gestão de risco. A leitura do mercado é que o silêncio, nesse caso, não é uma posição neutra, mas uma escolha ativa pela autopreservação comercial, mesmo que isso signifique silenciar outra voz.

A arte como resposta

O interessante, como aponta a reportagem da Hyperallergic, é que a resposta mais contundente veio na mesma linguagem que Sheeran evita: a da arte com posição. Charges, memes e comentários ácidos de ilustradores e escritores formaram um coro de desaprovação que perfurou a bolha de relações públicas do cantor. O episódio demonstra que, enquanto o pop mainstream pode optar pela lucrativa segurança do apolítico, a arte como um todo tem memória e, frequentemente, uma consciência. O gesto de Sheeran para evitar um incêndio acabou por acender vários outros, menores, mas talvez mais duradouros.

No fim, a tentativa de manter uma imagem perfeitamente lisa e sem arestas pode ter revelado mais sobre o caráter da sua marca do que qualquer canção. A grande ironia é que, ao tentar se dissociar de uma mensagem política, Ed Sheeran se tornou o centro de uma, questionando o papel e a responsabilidade dos ídolos em um mundo que exige, cada vez mais, que todos tomem uma posição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Hyperallergic