O aeroporto de Berlim, sob ventos que paralisam o tempo, serve como o primeiro cenário de uma jornada que Eduardo Halfon, quase impedido de chegar a Paris, descreve com a precisão de quem sabe que a literatura é, antes de tudo, uma negociação com o imprevisto. A espera tensa, o medo de perder o encontro com a fotógrafa Graciela Iturbide na Fondation Cartier, não é apenas um contratempo de viagem; é o prelúdio para uma imersão naquilo que o autor chama de zonas de sombra da memória. Quando ele finalmente chega à capital francesa, desgrenhado e sem bagagem, o encontro com Iturbide — mediado por um cigarro oferecido como um gesto de acolhimento quase ancestral — transforma a ansiedade em uma comunhão silenciosa sobre o luto.
O peso da herança e o diálogo com o ausente
No palco da Fondation Cartier, a conversa entre Halfon e Iturbide transcende a técnica fotográfica ou a estrutura narrativa. Eles discutem a morte, não como um dado biográfico, mas como uma presença constante que molda o processo criativo. O autor revisita a agonia de seu avô polonês, que em seus delírios finais revivia o horror de Auschwitz, e a morte prematura de seu tio Salomón. Essas histórias, contadas diante de uma plateia anônima, revelam como o trauma é uma herança que se transmite, exigindo que o escritor atue como um tradutor de fantasmas. A literatura, aqui, não serve para curar, mas para nomear o que, de outra forma, seria apenas silêncio.
O ritual como âncora na instabilidade
Ao acordar em um quarto de hotel no Quartier Latin, Halfon é assaltado por uma visão visceral: seus próprios pés, etiquetados no necrotério, sendo observados pelo filho. É um momento de clareza brutal sobre a finitude humana. Para lidar com essa imagem, ele recorre a um ritual quase supersticioso: caminhar até o mesmo café, pedir o mesmo café expresso e sentar-se na mesma mesa onde, anos antes, escreveu sobre a morte de Salomón. Esse comportamento repetitivo é a tentativa de invocar a inspiração, uma forma de manter o controle sobre o caos da existência. O café, com seu cheiro de naftalina e cadeiras desconfortáveis, torna-se o santuário onde o tempo parece suspenso.
A literatura como talismã contra o esquecimento
O uso de um amuleto — um talismã pré-histórico carregado em sua pasta de couro — sublinha a crença de Halfon de que o ato de escrever é uma forma de magia protetora. A escrita não é um exercício puramente intelectual; ela é tátil, física e muitas vezes desesperada. Ao observar o movimento da cidade e a entrada de uma figura enigmática, Regina, no café, o autor nos lembra que a ficção é uma extensão da vida cotidiana, onde o real e o imaginário se confundem constantemente. A busca por sentido, para Halfon, nunca é concluída, apenas continuada por meio de rituais que nos permitem suportar a brevidade da vida.
O futuro entre o que foi e o que virá
O que permanece, após o fechamento da última página, é a sensação de que a identidade é um mosaico de ausências. Halfon não busca respostas definitivas sobre sua relação com o judaísmo ou com a Guatemala, nem sobre o que nos espera após a última etiqueta ser colocada no pé. Ele nos convida a aceitar a incerteza como parte integrante da condição humana. Enquanto ele observa a luz mudar em Paris, o leitor é deixado com a pergunta: quanto de nós sobrevive nos objetos, nos gestos e nas histórias que deixamos para trás quando o vento, finalmente, decide parar de soprar?
O café continua barulhento, o tempo segue seu curso implacável, e a escrita permanece como a única forma de, por um instante, segurar a mão daqueles que já partiram. Com reportagem de Brazil Valley
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