A poucos meses da eleição presidencial, a instituição financeira ASA, fundada por Alberto J. Safra, adota um tom de máxima cautela. A recomendação para clientes é clara: em um cenário de indefinição política, a prioridade é proteger o patrimônio e evitar movimentos bruscos. A análise, detalhada em reportagem do InfoMoney, reflete um sentimento que se espalha pelo mercado financeiro brasileiro.

Para Rogério Freitas, head de investimentos locais do ASA, o pleito se assemelha a um 'cara ou coroa', com probabilidade de '50%-50' para dois projetos econômicos antagônicos. A tese da casa não é tentar adivinhar o vencedor, mas construir uma carteira resiliente, capaz de navegar tanto em um cenário de continuidade quanto em um de ruptura fiscal, sem cair em 'cascas de banana' pelo caminho.

O dilema dos dois Brasis

A estratégia do ASA é desenhada para um país bifurcado. Em caso de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a gestora projeta um ambiente de maior complacência fiscal e juros mais altos. Nesse cenário, a aposta recai sobre o Ibovespa, cuja forte composição de commodities e bancos oferece uma defesa natural, por sua menor dependência da economia doméstica. Fundos passivos que replicam o índice seriam a escolha preferencial, protegendo o investidor e capturando um eventual retorno do capital estrangeiro.

Por outro lado, uma vitória da oposição, com uma agenda de maior disciplina fiscal, abriria espaço para a queda dos juros, beneficiando ativos de risco e ligados ao ciclo econômico interno. Aqui, a gestão ativa ganharia protagonismo, com foco em empresas de crescimento, como as 'small caps', e até mesmo estatais, que poderiam surfar uma onda de otimismo. Diante da impossibilidade de prever o resultado, a solução é o 'básico': um portfólio misto, com um pé na gestão passiva e outro em gestores ativos selecionados.

Da renda fixa à IA americana

O pragmatismo se estende para além da bolsa. Na renda fixa, a preferência é por títulos públicos atrelados à inflação (NTN-Bs) de prazo médio, em torno de seis anos. A escolha busca um equilíbrio: evita a sensibilidade dos papéis curtos à inflação corrente e o risco fiscal dos vencimentos muito longos. No crédito privado, a seletividade é máxima, com foco em emissores de altíssima qualidade — 'quatro As, não apenas três As', segundo Freitas —, um reflexo da crescente preocupação com o risco de inadimplência.

No exterior, a visão é mais otimista. Charles Ferraz, head global de investimentos do ASA, aponta que os juros dos títulos do Tesouro americano começam a se tornar atrativos, e a casa deve aumentar a exposição. Nas bolsas, a onda de inteligência artificial não é vista como uma bolha, mas como um ciclo de investimento robusto que irriga diversos setores, de data centers a energia. A estratégia, novamente, é a diversificação, investindo na tese de IA de forma ampla, sem tentar eleger uma única empresa vencedora.

Em suma, a postura do ASA encapsula o humor do mercado brasileiro: diante de uma encruzilhada política doméstica, a gestão de risco se sobrepõe à busca por retornos agressivos. A ordem é construir uma fortaleza financeira para, primeiro, atravessar a turbulência e, só depois, pensar em capturar as oportunidades que surgirem quando a névoa se dissipar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney