A gestora ASA mantém uma projeção otimista para a bolsa brasileira no médio prazo: o Ibovespa poderia atingir 300 mil pontos. A condição, no entanto, é clara e depende do resultado das urnas em outubro. Segundo Rogério Freitas, head de investimentos da instituição, a eleição de um governo com agenda fiscalmente responsável é o gatilho indispensável para destravar esse potencial.

O pêndulo do mercado mudou de eixo. Se no primeiro semestre a dinâmica foi pautada por fatores globais — como o fluxo de capital estrangeiro e a realocação de portfólios para teses de inteligência artificial nos EUA —, agora o foco se volta para dentro. A corrida presidencial brasileira se tornou a principal variável na equação dos investidores, ofuscando o cenário internacional.

A âncora fiscal

A projeção de 300 mil pontos, conforme detalhado por Freitas, não é uma aposta para o curto prazo. Trata-se de um cenário que se desdobraria ao longo de 12 a 18 meses após a eleição, condicionado à percepção de que o novo governo fará o "dever de casa". O pano de fundo para essa exigência é a trajetória da dívida pública, que orbita 83% do PIB, tornando a disciplina nas contas um tema inadiável.

A leitura aqui é que, sem um compromisso crível com o controle dos gastos, nem mesmo um ambiente externo favorável para emergentes seria suficiente para sustentar os ativos brasileiros. O risco político doméstico tornou-se, portanto, o principal prêmio — ou desconto — a ser precificado pelos investidores nos próximos meses.

Dois cenários, uma variável

A ASA desenha dois caminhos distintos, com a eleição como único ponto de inflexão. Em um cenário de vitória de um candidato alinhado à responsabilidade fiscal, a expectativa é de uma forte tração para ativos ligados ao ciclo doméstico. A gestora aponta oportunidades em small caps, empresas estatais e na gestão ativa, que ganharia espaço para superar os benchmarks do mercado.

Por outro lado, a eleição de um perfil considerado fiscalmente "menos responsável" levaria a um desempenho negativo dos ativos de risco. Nesse caso, Freitas aponta o dólar como o refúgio mais provável para os investidores, em detrimento das opções locais. A visão é binária, com pouco espaço para meio-termo, refletindo a alta sensibilidade do capital à política econômica.

Diante da incerteza — Freitas classifica a disputa como polarizada e apertada, a ser decidida por uma pequena fatia do eleitorado —, a postura da ASA é de cautela. A gestora prefere aguardar maior clareza antes de tomar posições mais convictas. Por enquanto, a recomendação é "fazer o simples", com um portfólio que mescla gestão passiva e apostas pontuais em gestores ativos, aguardando a definição do jogo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea