Veneza se prepara para receber, entre 1 e 30 de setembro de 2026, a quarta edição da Homo Faber, a bienal dedicada ao mais alto nível do artesanato contemporâneo. O evento, que ocupará a histórica Fondazione Giorgio Cini na ilha de San Giorgio Maggiore, promete ser uma de suas edições mais ambiciosas, reunindo mais de 500 artesãos de 70 países. A direção artística está a cargo da britânica Es Devlin, conhecida por suas cenografias monumentais para artistas como Beyoncé e U2, e para cerimônias olímpicas. O título, “Uma Ilha de Luz”, já sinaliza a abordagem.
Segundo reportagem da revista Designboom, a proposta de Devlin é usar sua expertise em espetáculos de grande escala não para ofuscar, mas para iluminar o fazer manual. A tese editorial aqui é clara: em um mundo dominado por algoritmos e pela produção em massa, o gesto do artesão se torna um ato de resistência. A exposição se desdobra em 15 instalações imersivas que utilizam luz, água, espelhos e som para recontextualizar o objeto artesanal, deslocando o foco do produto final para o processo, as ferramentas e a sabedoria contida nas mãos de quem o cria.
A cenografia como narrativa
O trabalho de Es Devlin para a Homo Faber é menos uma curadoria de objetos e mais uma direção de cena para a própria ideia de artesanato. A exposição foi concebida como uma sequência de experiências que respondem diretamente à arquitetura da ilha. A intenção é que o visitante sinta que adentrou o espaço mental e físico do artesão. A primeira instalação, “A Language of Hands” (Uma Linguagem de Mãos), por exemplo, recria a atmosfera de um ateliê momentos após seus ocupantes terem encerrado o dia, usando projeções e sons para evocar a presença ausente dos criadores.
Essa inversão de protagonismo — do objeto para o sujeito — é um fio condutor. Em vez de apresentar as obras em pedestais estáticos, Devlin guia o público por uma jornada que começa com o humano. “An Index of Artisans” (Um Índice de Artesãos) exibe retratos em preto e branco dos mestres participantes, dando rosto a quem normalmente permanece anônimo. Em suas palavras, a exposição é um convite para lembrar que “pensamos com as pontas dos nossos dedos”. A cenografia, portanto, atua como um argumento visual, forçando o espectador a ver além da vitrine e a considerar a inteligência corporal e o tempo investido em cada peça.
O manifesto do 'fazer'
Por trás da escala monumental do evento, há um posicionamento filosófico claro, articulado por Alberto Cavalli, diretor executivo da Michelangelo Foundation, organizadora da bienal. Para ele, em uma era em que as novas gerações correm o risco de se tornarem “escravas do algoritmo”, o fazer manual representa um espaço de individualidade e liberdade. A Homo Faber, nesse contexto, se posiciona como um movimento que valoriza a criatividade humana, a comunidade e a “alegria que vem do fazer”. É uma resposta direta a um mundo onde, segundo Cavalli, a comunicação digital constante paradoxalmente aprofunda o isolamento.
As instalações refletem essa visão. “A Feast of Light” (Um Banquete de Luz) reúne centenas de objetos brancos em uma mesa iluminada, forçando o olhar a perceber nuances de textura e translucidez que a cor ofuscaria. Em contraste, “A Rainbow of Forms” (Um Arco-Íris de Formas) cria um ambiente caleidoscópico com peças coloridas e espelhos, celebrando a exuberância material. Simone Venturini, prefeito de Veneza, ecoa essa percepção ao afirmar que a Homo Faber “não é uma exposição sobre coisas, mas um movimento sobre humanidade e alma”. A ambição é usar a beleza e a autenticidade do artesanato para, em suas palavras, “curar as feridas de um mundo muito conturbado”.
O resultado é um evento que opera em uma tensão produtiva. Ele utiliza a linguagem do espetáculo e da tecnologia imersiva, ferramentas do século XXI, para celebrar práticas que são, em sua essência, atemporais. A grande questão que “Uma Ilha de Luz” deixa no ar não é apenas sobre a beleza dos objetos, mas sobre o valor que atribuímos ao trabalho humano, à lentidão e à maestria em uma cultura que preza, acima de tudo, a velocidade e a escala.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





