A startup Endurance, sediada em Seattle, anunciou a captação de US$ 54 milhões para desenvolver uma tecnologia inédita de extração de energia térmica a partir de vulcões submarinos. Liderada pelo ex-engenheiro da SpaceX, Andrew Reed, a empresa pretende entregar eletricidade à rede elétrica em um prazo de dois anos. O projeto se destaca pela ambição de atingir uma escala de geração de gigawatts, utilizando a infraestrutura térmica encontrada em profundidades oceânicas.

A estratégia da Endurance baseia-se na aplicação de metodologias de desenvolvimento ágil, comuns na indústria aeroespacial, para reduzir o tempo de prototipagem de projetos de energia. Segundo a empresa, essa cultura de engenharia permite um ritmo de inovação que supera os padrões tradicionais do setor energético. A equipe, composta por profissionais com histórico na SpaceX, já realizou quatro testes de protótipos em sistemas vulcânicos submersos a cerca de 1.000 pés de profundidade.

A promessa da energia geotérmica profunda

A energia geotérmica tradicional envolve a perfuração de poços em reservatórios terrestres de água quente ou vapor, que são trazidos à superfície para movimentar turbinas. A proposta da Endurance inova ao direcionar esse processo para o leito oceânico, onde sistemas vulcânicos aquecem a água a temperaturas que atingem 728 graus Fahrenheit. A transição para o ambiente marítimo busca acessar fontes de calor mais intensas e constantes do que as disponíveis em terra.

Historicamente, a energia geotérmica enfrenta desafios de viabilidade econômica e complexidade técnica em perfurações profundas. A Endurance argumenta que a operação no ambiente submarino, embora mais complexa, oferece um potencial energético superior. O objetivo é alcançar a capacidade de gigawatts, comparável a grandes usinas hidrelétricas como a Grand Coulee Dam, nos Estados Unidos, que possui 6,8 gigawatts de capacidade instalada.

O modelo de desenvolvimento estilo SpaceX

O diferencial da Endurance reside na execução técnica. O sistema "Adelie", um gerador de 100 quilowatts, representa a primeira solução completa da startup capaz de realizar a perfuração oceânica, gerar energia e gerenciar a transferência elétrica simultaneamente. A empresa utiliza sua localização em Seattle, próxima a infraestruturas portuárias de Lake Union, para facilitar a logística de transporte de equipamentos pesados para navios de pesquisa.

A adoção de práticas de engenharia de alta intensidade, com foco em iteração rápida, é o pilar central da tese de investimento da Founders Fund e de outros investidores como Felicis e Voyager Ventures. Ao replicar o modelo de desenvolvimento aeroespacial, a startup tenta contornar a lentidão típica de projetos de infraestrutura energética, focando em testes práticos e constantes no campo.

Implicações para o setor de energia limpa

O setor de energia geotérmica vive um momento de renovação, impulsionado pela busca por fontes de eletricidade carbon-zero que operem 24 horas por dia. Empresas como Fervo Energy e Sage Geosystems já atraíram centenas de milhões de dólares em investimentos recentes. A entrada da Endurance adiciona uma camada de complexidade técnica ao mercado, ao explorar o potencial inexplorado das profundezas oceânicas.

Para reguladores e competidores, a viabilidade técnica da Endurance servirá como um teste de escala para tecnologias de perfuração subaquática. Se bem-sucedida, a tecnologia poderá alterar o mapa de investimentos em energia renovável, criando uma nova categoria de ativos de geração baseada em calor vulcânico, um recurso abundante, porém tecnicamente desafiador de capturar.

Desafios de longo prazo e incertezas

Apesar do otimismo dos investidores, a transição da escala de protótipo de 100 quilowatts para a escala de gigawatts permanece como o maior desafio da empresa. A durabilidade dos materiais em ambientes de alta pressão e temperatura, combinada com a logística de manutenção em alto-mar, são variáveis que ainda precisam de validação em escala industrial.

O mercado de energia observará com atenção o teste do sistema Adelie na cordilheira Juan de Fuca, prevista para o outono. O sucesso desta operação determinará se a abordagem da Endurance pode, de fato, competir com as fontes renováveis terrestres em custo e confiabilidade operacional.

A corrida pela energia geotérmica submarina apenas começou, e a capacidade da Endurance em manter seu ritmo de desenvolvimento será determinante para sua sobrevivência em um mercado que exige resultados de longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire