O governo espanhol sinaliza que irá dobrar a aposta na intervenção do mercado imobiliário para combater a crise de habitação. A Ministra da Habitação e Agenda Urbana, Isabel Rodríguez, manifestou confiança em aprovar um novo decreto-lei sobre o tema já em setembro, após fechar acordos com os grupos parlamentares nas próximas semanas.

Segundo reportagem da Forbes España, a estratégia se apoia em dois eixos: aumentar a oferta de moradia a preços acessíveis e combater a especulação. A leitura é que, diante de um cenário político fragmentado, a administração de Pedro Sánchez busca consolidar sua política de habitação como uma bandeira central, utilizando ferramentas que geram intenso debate econômico, como o controle de preços e o forte investimento público.

A ofensiva em duas frentes

Do lado da oferta, o governo destaca projetos como o do bairro Campamento, em Madrid, onde uma licitação de 94 milhões de euros foi autorizada para urbanizar áreas que darão origem a mais de 10 mil moradias públicas ou de aluguel acessível. O plano é que esses imóveis permaneçam com status de proteção de forma permanente, uma tentativa de criar um estoque de longo prazo imune às flutuações do mercado.

No combate à especulação, o foco está nos aluguéis de temporada. A ministra afirmou que um novo registro unificado permitiu identificar 111 mil apartamentos turísticos que operavam ilegalmente. A pressão agora se volta para as comunidades autônomas, instadas a converter esses imóveis em moradia de longo prazo e a aplicar os instrumentos da Lei de Habitação para coibir novas irregularidades.

O teste do controle de aluguéis

O pilar mais controverso da estratégia é a expansão das chamadas “zonas de mercado tensionado”, áreas onde os preços dos aluguéis são regulados. O governo celebra a adesão de novos municípios e bairros em regiões como Astúrias, País Basco e Galícia, elevando para mais de 9,3 milhões o número de pessoas vivendo sob esse regime. A tese oficial é que a medida já contribui para moderar os preços.

Para analistas de mercado, no entanto, a eficácia do controle de preços é questionável, com o risco de reduzir a oferta de imóveis para locação e desestimular novos investimentos. O governo espanhol parece disposto a pagar para ver, tratando a ferramenta como essencial para garantir o direito à moradia em um dos mercados mais pressionados da Europa.

A confiança da ministra depende, em última instância, da articulação política para aprovar o decreto em setembro. O sucesso da empreitada, contudo, será medido a longo prazo, na capacidade de equilibrar intervenção estatal com a dinâmica de um mercado complexo e na colaboração efetiva entre governo central, regiões autônomas e municípios.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España