O governo da Espanha, por meio de sua agência para transformação tecnológica, a SETT, anunciou um investimento de € 680 mil na Nearby Computing, uma startup de 'deep tech' focada na orquestração de infraestruturas digitais. O aporte faz parte de uma operação total de € 1,4 milhão e sinaliza uma movimentação estratégica do Estado para garantir maior controle e resiliência sobre seus sistemas críticos.

Mais do que um cheque, o investimento representa uma tese de soberania digital. Ao apostar em uma empresa que desenvolve a camada de software para gerenciar ambientes complexos de nuvem e 'edge computing', a Espanha busca reduzir a dependência de tecnologias estrangeiras em setores estratégicos. A leitura aqui é que o governo europeu está tratando a infraestrutura digital não apenas como uma questão de mercado, mas de segurança nacional.

A infraestrutura como soberania

A tecnologia da Nearby Computing atua como um maestro para sistemas computacionais distribuídos. Em um mundo onde o processamento de dados acontece cada vez mais na "borda" ('edge') — próximo a indústrias, redes de energia ou lojas — e não apenas em data centers centralizados, a capacidade de gerenciar essa complexidade de forma automatizada torna-se vital. A startup, uma spin-off do Barcelona Supercomputing Center (BSC) e da Universitat Politècnica de Catalunya (UPC), nasceu no epicentro da pesquisa em computação de ponta.

O software da companhia permite que aplicações continuem operando mesmo com interrupções de conectividade com a nuvem principal. Para serviços essenciais, como redes elétricas ou de telecomunicações, isso significa resiliência contra apagões, desastres naturais ou outras emergências. É uma aposta na descentralização como forma de blindar a operação de sistemas vitais, garantindo que eles possam se recuperar mais rapidamente de falhas.

O modelo público-privado em 'deep tech'

O capital para o investimento vem da facilidade Next Tech, um veículo que utiliza fundos do Plano de Recuperação da União Europeia (Next Generation EU). O modelo é claro: usar capital público para catalisar o crescimento de startups e scale-ups em setores de 'deep tech', que frequentemente possuem ciclos de desenvolvimento mais longos e maior risco, afastando o capital de risco tradicional em estágios iniciais.

Para a Espanha, a iniciativa fortalece o ecossistema tecnológico doméstico e cria capacidades industriais próprias. Para empresas como a Nearby Computing, representa um selo de validação e o capital necessário para escalar uma tecnologia de base complexa. O movimento se alinha a uma tendência mais ampla na Europa de fomentar campeões tecnológicos locais para competir e garantir autonomia em uma geopolítica cada vez mais digital.

O aporte na Nearby Computing é um microcosmo de uma estratégia maior. A questão que permanece é a eficácia deste modelo de fomento estatal para criar não apenas empresas resilientes em âmbito doméstico, mas gigantes capazes de competir em escala global. O caminho para a soberania digital, ao que parece, passa por um alinhamento fino entre o laboratório, o mercado e o Estado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España