Em Veneza, na histórica Casa dei Tre Oci, o Berggruen Institute reuniu uma congregação improvável: físicos quânticos, neurocientistas, filósofos, acadêmicos religiosos e romancistas de ficção científica. O tema, tão antigo quanto o pensamento humano, era a natureza da consciência. A questão fundamental que pairava sobre os canais da cidade era se existe um abismo metafísico entre corpo e alma, ou se são, na verdade, aspectos simbióticos de uma realidade singular.
O que emergiu da discussão, conforme detalhado pela Noema Magazine, não foi uma resposta definitiva, mas um fascinante eco através dos séculos. As reflexões de ponta da ciência contemporânea espelham, de forma surpreendente, as intuições de místicos medievais e mestres da antiguidade. A tese que costura essas eras é provocadora: a realidade objetiva não é algo que simplesmente acessamos de fora. A perspectiva subjetiva — o “eu” — é um componente ativo que torna o universo “inteiro em toda parte”.
O espelho da mente
A ideia de que a realidade é uma manifestação unificada, percebida de múltiplas formas, é central para diversas tradições espirituais. O Swami Medhananda, um monge da Ordem Ramakrishna, descreve o hinduísmo como um “monismo polimórfico”: a afirmação de uma única Realidade Divina infinita, que pode ser conhecida e adorada em muitas formas. A verdade, como diz um verso do ‘Rig Veda’, “é uma; os sábios a chamam por muitos nomes”. Nossa identidade mais profunda, o ātman, está conectada a esse todo, e o sofrimento surge ao confundirmos essa essência com o ego e o corpo transitórios.
Essa noção de uma presença singular que permeia tudo encontra paralelo no sufismo islâmico. Muhammed U. Faruque argumenta que a experiência subjetiva pressupõe um terreno mais profundo e não-objetificável chamado “presença” (ḥuḍūr). A consciência do “eu” é simples e indivisível; ela é a luz que ilumina a si mesma e ao mundo. É “vazia” porque seus conteúdos — pensamentos, emoções — mudam, mas “total” porque todo o universo só se revela dentro dela. Essa cosmologia ressoa com um aforismo do século XII, atribuído a pensadores pagãos: “Deus é uma esfera infinita cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em lugar nenhum”. Se o centro está em todo lugar, ele está inteiro em todo lugar.
A alucinação controlada
Se a mística oferece a metáfora de uma esfera infinita, a neurociência moderna propõe uma imagem mais visceral: o cérebro como uma “máquina de previsão”. Para Anil Seth, neurocientista que estuda o tema há 25 anos, toda experiência consciente é uma espécie de “alucinação controlada”. O que percebemos do mundo não é a realidade em si, mas a melhor aposta do cérebro para garantir nossa sobrevivência, um modelo construído tanto de “dentro para fora” quanto de “fora para dentro”. Nas palavras da romancista Anaïs Nin, que Seth evoca: “Não vemos as coisas como são, vemos as coisas como somos”.
Essa construção ativa da realidade é o que o romancista de ficção científica Ken Liu chama de “confabulação” — a capacidade de criar narrativas. Desde a forma como o cérebro integra sinais sensoriais que chegam em tempos diferentes até a construção de um senso de identidade com propósito e história, estamos constantemente contando histórias para nós mesmos. A filósofa Jenann Ismael amarra as pontas com a metáfora de um espelho: a nossa experiência é a membrana entre o mundo interior e o exterior, “contendo ao mesmo tempo a totalidade da realidade dentro de si e ocupando, por sua própria conta, apenas uma fina fatia dessa realidade”.
O físico quântico Carlo Rovelli, por sua vez, argumenta que o debate sobre a lacuna entre mente e matéria é um erro de partida. Para ele, não há dualismo. A mente é o comportamento do cérebro descrito em uma linguagem de alto nível. Nós não estamos fora do mundo, somos parte dele. Nossa compreensão é um fenômeno natural dentro do próprio universo que ela tenta descrever. A alma não é metafisicamente diferente do corpo, assim como os seres vivos não são diferentes da matéria inanimada. A objetividade sem um sujeito, diz Rovelli, é uma construção abstrata, “a ilusão de uma ciência que agora pertence ao passado”.
O círculo se fecha, retornando aos místicos como Meister Eckhart, para quem ter consciência era saber-se parte da mente de Deus, o Logos. Se o universo é um texto, nós não somos apenas leitores; somos coautores. A busca pela natureza da consciência, seja no mosteiro ou no laboratório, aponta para a mesma conclusão vertiginosa: o sujeito que conhece não apenas revela o universo; ele o cocria por dentro. Talvez o ato de olhar para si mesmo seja a única forma de enxergar o todo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Noema Magazine





