Um jantar em Atenas em março, com a então embaixadora dos EUA na Grécia, Kimberly Guilfoyle, marcou uma declaração que combinava arrogância e ameaça. Segundo relatos do Wall Street Journal e do Financial Times, Guilfoyle comentou sobre as dificuldades da coalizão governante na Romênia, atribuindo a si mesma o mérito de seu iminente colapso: "Nós podemos fazer isso com qualquer país que quisermos", teria dito. "Podemos fazer isso aqui". Guilfoyle foi posteriormente desgraçada por outro motivo, mas suas falas políticas causaram alarme na Europa. Ela parecia acreditar na capacidade de influenciar a política interna de governos europeus democraticamente eleitos, todos eles aliados dos EUA e membros da OTAN. Guilfoyle não é a única oficial da administração Trump a tentar tal feito. Se antes os EUA promoviam a democracia como um sistema político, aceitando políticos de centro-esquerda e centro-direita como legítimos, a abordagem atual parece distinta. Em alguns casos, o interesse recai sobre partidos ideologicamente alinhados ao movimento MAGA, incluindo alguns abertamente pró-Rússia. Outros políticos europeus parecem obter o aval de Washington por promoverem interesses comerciais ligados a figuras próximas à administração. Em pelo menos três casos, americanos teriam tentado persuadir líderes europeus a romperem com seus parceiros de coalizão atuais em favor de outros mais alinhados aos interesses da Casa Branca.

O Caso Polonês e o Apoio à Extrema-Direita

O caso mais claro de interferência ocorre na Polônia. O partido do Ministro das Relações Exteriores polonês, Radek Sikorski, é o maior membro da coalizão governante. Contudo, a mídia polonesa, incluindo a de extrema-direita, noticiou amplamente que o ex-presidente Trump teria sugerido ao líder de outro partido da coalizão que mudasse de lado. O político em questão, Wladyslaw Kosiniak-Kamysz, líder do pequeno Partido Popular Polonês, teria sido abordado em Washington. Após um evento organizado por ativistas poloneses com contatos MAGA, Trump teria dito a Kosiniak-Kamysz que ele seria mais bem visto em Washington se deixasse a coalizão governante e fizesse um acordo com partidos nacionalistas e de extrema-direita. Kosiniak-Kamysz não seguiu o conselho. Essa não foi a primeira vez que a administração Trump demonstrou suas simpatias na Polônia; durante a campanha presidencial polonesa do ano anterior, o candidato de extrema-direita Karol Nawrocki visitou Washington e recebeu o endosso de Trump. O episódio polonês, no entanto, parece inédito, evocando memórias de interferência soviética na escolha de líderes comunistas poloneses.

Interferência na Romênia e Interesses Comerciais

Na Romênia, Kimberly Guilfoyle, apesar de sua postagem em Atenas, demonstrou um interesse incomum nos detalhes da política interna romena. Em um evento em Bucareste, ela falou sobre o "corredor vertical de gás", um sistema de gasodutos conectando Grécia, Romênia, Ucrânia e outros países do sudeste europeu. Guilfoyle, sem experiência prévia em infraestrutura de gás, tornou-se entusiasta durante sua estadia na Grécia. Christos Marafatsos, um lobista da Aktor Group, empresa grega com interesses no sistema de gasodutos, viajou frequentemente com Guilfoyle, levando alguns oficiais estrangeiros a confundi-lo com seu chefe de gabinete. O CEO da Aktor também participou do evento em Bucareste. Guilfoyle defendeu não apenas a construção da infraestrutura, mas também a compra de gás natural liquefeito americano, algo em que a Aktor tem interesse. Ilie Bolojan, então primeiro-ministro romeno e apoiador do projeto, não estava interessado em vincular a Romênia a um contrato de compra de gás devido ao preço não competitivo e ao fato de o país se preparar para exportar seu próprio gás. Outros, no entanto, estavam interessados. Na mesma viagem, Guilfoyle jantou em Bucareste com Sorin Grindeanu, líder do Partido Social Democrata da Romênia e parceiro de coalizão de Bolojan, além de outros políticos romenos. Um ex-ministro da energia presente demonstrou interesse em comprar GNL americano e teria escrito ao primeiro-ministro e ao presidente defendendo a iniciativa. Nos meses seguintes, o partido de Grindeanu deixaria a coalizão, aliando-se ao partido de extrema-direita romeno para apoiar um voto de desconfiança contra o governo de Bolojan, forçando sua renúncia. Grindeanu e o líder da extrema-direita romena, George Simion, negaram veementemente qualquer influência americana em suas decisões, embora Simion tenha se descrito como "bom amigo" de Guilfoyle.

O Contraditório Papel dos EUA na Defesa Europeia

Em paralelo a essas supostas interferências, os EUA parecem promover uma política contraditória em relação à defesa europeia. Enquanto oficiais americanos, como Elbridge Colby, ex-subsecretário de defesa, incentivam os aliados a assumirem "responsabilidade primária pela defesa convencional da Europa", a mesma administração estaria apoiando partidos que se opõem a gastos com defesa, favorecem a Rússia ou não demonstram compromisso com a defesa europeia. Na Alemanha, alguns políticos acreditam que a administração Trump deseja que a União Democrata-Cristã (CDU) rompa a "barreira de contenção" e forme uma coalizão com a extrema-direita AfD (Alternativa para a Alemanha). A AfD é abertamente pró-Rússia, e alguns de seus políticos têm afiliações neonazistas. Para muitos democratas-cristãos, a ideia de se aliar à AfD é um rompimento com seus valores fundadores. O ex-presidente Trump tem usado sua plataforma Truth Social para promover a AfD, celebrando suas recentes vitórias regionais. Elon Musk, um aliado próximo da administração e um dos maiores doadores republicanos, participou virtualmente de um evento da AfD, o que, devido ao alcance de seu algoritmo no X, representou uma promoção significativa. Um gesto notório ocorreu quando legisladores de vários partidos foram a Washington e foram informados que apenas representantes da AfD e da CDU poderiam entrar em prédios governamentais, enquanto membros do Partido Social Democrata, parte da coalizão governante, foram excluídos. A CDU recusou o convite, interpretando o gesto como uma mensagem clara: o único parceiro reconhecido é a AfD. Essa atitude revela um desprezo pela democracia alemã e uma contradição fundamental na política externa americana, que incentiva o rearmamento europeu enquanto apoia políticos que se opõem a ele ou à cooperação em defesa. A AfD, por exemplo, se opõe ao auxílio militar à Ucrânia e à cooperação em defesa com outros países europeus, enquanto Tino Chrupalla, copresidente do partido, já defendeu a expulsão de tropas americanas da Alemanha. O líder da extrema-direita romena, George Simion, também defendeu a restauração de fronteiras pré-1940 da Romênia, incluindo territórios ucranianos. A extrema-direita polonesa tem ecoado narrativas anti-europeias e anti-ucranianas, alinhadas com Washington e Moscou, minando o apoio à defesa europeia unificada.

Incertezas no Horizonte Europeu

A política externa americana, sob a influência MAGA, parece ter invertido a narrativa histórica. O que antes era uma promoção da democracia em geral, agora se volta para o apoio a partidos específicos, alguns com inclinações autoritárias e pró-Rússia. Essa abordagem gera confusão entre o público e os políticos europeus, que antes acreditavam que os EUA promoviam a democracia e se opunham a regimes autoritários. Alguns oficiais americanos, como Guilfoyle, parecem mais interessados em acordos comerciais do que em segurança. Outros parecem perseguir objetivos perigosos. A questão que paira é se os Estados Unidos desejam que os europeus construam exércitos robustos para, em seguida, desmantelar instituições europeias e entregar esses exércitos a nacionalistas, uma política que já se mostrou desastrosa no século XX.

O futuro da política europeia, e a relação transatlântica, permanecem incertos diante dessa nova abordagem americana. A capacidade dos EUA de influenciar unilateralmente as dinâmicas políticas internas de seus aliados levanta sérias questões sobre a soberania e a estabilidade democrática no continente. A observação atenta de como essas dinâmicas se desenrolam será crucial para entender o futuro da ordem geopolítica. Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas