O Tesouro americano atingiu um marco sombrio: o custo para servir sua dívida nacional de quase US$ 40 trilhões agora ultrapassa US$ 3 bilhões por dia em pagamentos de juros. A cifra vem de um novo relatório do Congressional Budget Office (CBO), o órgão de orçamento do Congresso dos EUA.
O número alarmante, por si só, já seria notícia. Mas ele ganha contornos de um complexo xadrez geopolítico ao ser justaposto a outra manobra recente do Tesouro: uma intervenção de até US$ 10 bilhões para estabilizar o iene, a moeda do Japão — justamente o maior credor estrangeiro dos Estados Unidos.
A espiral do endividamento
Segundo o CBO, os pagamentos líquidos de juros sobre a dívida pública somaram US$ 963 bilhões nos dez primeiros meses do ano fiscal corrente, um aumento de 14% em relação ao mesmo período do ano anterior. O órgão projeta que o déficit fiscal totalizará US$ 2,1 trilhões neste ano. O pano de fundo é uma relação dívida/PIB que já alcança 122%, um patamar que preocupa analistas.
A tese dos chamados "falcões da dívida" é que, em algum momento, os credores exigirão um prêmio de risco mais alto para continuar financiando o governo americano, elevando ainda mais os juros e criando um ciclo vicioso. O fundador da Bridgewater Associates, Ray Dalio, já alertou para o risco de um "ataque cardíaco induzido pela dívida", no qual os pagamentos de juros canibalizam o investimento público.
O paradoxo japonês
É nesse contexto que se insere a recente decisão do Tesouro, comandado pelo secretário Scott Bessent, de comprar entre US$ 5 bilhões e US$ 10 bilhões em ienes. A medida, confirmada por Bessent, visa estabilizar a moeda japonesa e, por extensão, a economia da região. A lógica é puramente pragmática e defensiva.
O Japão é o maior detentor estrangeiro de títulos do Tesouro americano, com uma carteira de US$ 1,14 trilhão. Se o iene se desvalorizasse a ponto de forçar o banco central japonês a vender suas reservas em dólar (ou seja, os títulos americanos) para defender a própria moeda, isso inundaria o mercado, derrubaria o preço dos títulos e dispararia os juros que os EUA pagam para se financiar. A intervenção, portanto, é uma forma de autoproteção para evitar que o custo da dívida americana saia ainda mais de controle.
A manobra revela a frágil interdependência que define o sistema financeiro global. Os EUA precisam de compradores para sua dívida crescente, mas, para mantê-los, veem-se obrigados a usar seu próprio capital para garantir a estabilidade de seus credores. É um equilíbrio delicado, cuja sustentabilidade é a grande questão em aberto.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





