A participação dos Estados Unidos em novos veículos vendidos no Canadá caiu para 28,4% no primeiro semestre de 2026, uma queda acentuada em relação aos 35,4% do mesmo período do ano anterior. Essa diminuição, que reverte uma tendência de décadas de domínio americano no mercado canadense, é atribuída por analistas a uma série de tarifas de importação impostas pelos EUA nos últimos dezoito meses. As medidas, que incluíram uma tarifa de 25% sobre carros fabricados no Canadá e a ameaça de duplicá-la para peças e veículos a partir de janeiro de 2027, provocaram retaliações do Canadá. O país vizinho respondeu com tarifas sobre automóveis, aço e alumínio fabricados nos EUA, exacerbando a tensão comercial.
O Círculo Vicioso das Tarifas Automotivas
A indústria automotiva opera em cadeias de suprimentos globais complexas, onde veículos são compostos por milhares de peças de diversas origens. Essa interdependência significa que mesmo carros "fabricados nos EUA" dependem de componentes internacionais. As tarifas impostas pelos EUA, portanto, não apenas encarecem os produtos finais, mas também afetam a logística e os custos de produção de forma generalizada. Empresas como GM e Stellantis já relataram perdas bilionárias devido a essas tarifas, e o aumento de custos está sendo repassado aos consumidores. Estimativas indicam que as tarifas podem elevar o preço dos veículos em até US$ 6.000, impactando também os custos de financiamento e seguro.
Impacto no Emprego e na Competitividade
Economistas alertam que as restrições comerciais podem levar à redução da produção de veículos nos EUA. A dependência de montadoras americanas em relação a componentes e montagens no Canadá e México significa que a produção "doméstica" é, em muitos casos, uma montagem final. Com menos carros sendo produzidos, a demanda por mão de obra diminui. Dados recentes indicam uma perda de cerca de 75.000 empregos na indústria manufatureira dos EUA desde o início de 2025, incluindo mais de 25.900 postos de trabalho na produção de veículos e peças. Embora planos de reshoring, como o novo investimento da Toyota e a realocação de produção da Ford, possam mitigar parte desse impacto a longo prazo, a tendência imediata é preocupante.
Concorrência Internacional e Relações Bilaterais
O encolhimento da participação de mercado dos EUA no Canadá tem beneficiado diretamente concorrentes asiáticos e europeus. Com cadeias de suprimentos mais integradas e tarifas mais baixas nesses mercados, a produção de carros no Japão, Alemanha ou Core do Sul tornou-se mais vantajosa economicamente para o mercado norte-americano do que a produção local. As importações canadenses do Japão, por exemplo, aumentaram de 13,7% para 16,6% no primeiro semestre de 2026, enquanto as da Coreia do Sul subiram para 15,6%. Essa dinâmica desafia a premissa das políticas protecionistas, que visavam fortalecer a indústria americana, mas acabam por torná-la menos competitiva.
O Futuro do Comércio Automotivo
A relação comercial automotiva entre EUA e Canadá, historicamente forte e consolidada por acordos como o NAFTA e o USMCA, enfrenta um período de incerteza. A deterioração dessa relação diplomática e comercial pode ter consequências duradouras, minando décadas de sinergia industrial. A aplicação de políticas protecionistas, embora intencionada a proteger a indústria local, pode paradoxalmente encolher o mercado e enfraquecer a competitividade a longo prazo. A manutenção dessas tarifas e a incerteza em torno de acordos comerciais futuros levantam sérias dúvidas sobre a sustentabilidade e o crescimento do setor automotivo na América do Norte.
A análise dos dados recentes sugere um cenário complexo, onde as políticas comerciais destinadas a beneficiar uma nação acabam por prejudicar sua própria indústria e distorcer a competitividade global. A indústria automotiva, intrinsecamente ligada ao comércio internacional, parece ser um exemplo claro dos efeitos colaterais não previstos de medidas protecionistas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





