A percepção global sobre os Estados Unidos atravessa um momento de transformação profunda. De acordo com dados do America Reputation Tracker, da Morning Consult, coletados em janeiro de 2026, a tradicional aliança ocidental enfrenta um desgaste sem precedentes na opinião pública. O fenômeno chama a atenção pela inversão de papéis: enquanto nações historicamente próximas demonstram crescente ceticismo, economias emergentes consolidam-se como os principais bastiões de apoio à influência americana.

O levantamento, que abrange 45 países, aponta Israel e Nigéria na liderança da favorabilidade, com 83% de aprovação. Em contrapartida, nove das dez nações com as avaliações mais baixas são membros do bloco ocidental, incluindo Canadá, França, Alemanha e Suécia. A leitura editorial aqui é que o soft power americano, antes ancorado em valores compartilhados e estabilidade diplomática, agora é filtrado pelas tensões comerciais e pela volatilidade política recente.

O novo mapa da diplomacia

A ascensão de países como Vietnã, Índia e Peru no ranking de favorabilidade sugere que a percepção externa dos EUA está cada vez mais atrelada a interesses estratégicos pragmáticos. Para essas nações, os Estados Unidos representam um contrapeso fundamental em termos de segurança e parceria econômica, superando as divergências ideológicas que frequentemente dominam o debate interno nos países europeus.

Historicamente, a confiança no modelo americano era um pilar da geopolítica pós-Guerra Fria. No entanto, o cenário atual indica que o pragmatismo das economias emergentes está substituindo o alinhamento automático de décadas passadas. A análise desses números revela que a relevância americana, embora inegável, está sendo reconfigurada para atender a uma nova dinâmica de poder global onde a utilidade econômica pesa mais do que a afinidade cultural.

Tensões comerciais e o desgaste das alianças

O esfriamento das relações com o Canadá e a Europa não é casual. A imposição de tarifas, as críticas contínuas à estrutura da OTAN e a retórica protecionista adotada pela gestão Trump criaram um ambiente de incerteza que impacta diretamente a opinião pública desses países. Quando um aliado tradicional como o Canadá busca ativamente diversificar suas parcerias comerciais com a Europa e a China, o sinal enviado é de que a dependência estratégica em relação a Washington tornou-se um risco operacional.

O mecanismo por trás dessa queda de popularidade é a percepção de imprevisibilidade. Para os cidadãos europeus e canadenses, a política externa americana deixou de ser um porto seguro para se tornar uma variável de instabilidade. Esse descolamento entre as elites políticas e a opinião pública nessas regiões reflete um descontentamento com a direção que a política externa dos EUA tomou nos últimos anos.

O paradoxo da rivalidade com a China

Um dado que merece destaque é o posicionamento da China no ranking. Apesar da rivalidade sistêmica entre Washington e Pequim, a favorabilidade dos EUA na China supera a de países como Canadá, Bélgica e Suécia. Esse paradoxo ilustra que a imagem americana é hoje um mosaico complexo, onde a rivalidade geopolítica direta não impede, em certos contextos, uma visão menos negativa do que a existente entre aliados que se sentem negligenciados ou pressionados.

Para os stakeholders, o desafio é entender que a influência não é mais um ativo imutável. Reguladores e diplomatas precisam lidar com um cenário onde as alianças não são mais garantidas por inércia histórica, mas exigem uma manutenção constante de confiança e respeito mútuo, algo que parece estar em falta nas relações transatlânticas atuais.

Perspectivas para o cenário global

O que permanece incerto é se essa tendência de afastamento dos aliados ocidentais é cíclica ou estrutural. A fragmentação da opinião pública global sugere que os Estados Unidos terão que aprender a navegar em um mundo onde sua liderança é questionada tanto por rivais quanto por parceiros.

Observar como essas nações ajustarão suas políticas internas frente à instabilidade de Washington será o próximo passo para entender a nova ordem mundial. A dúvida que fica é se o país conseguirá reverter esse desgaste ou se a tendência de diversificação de parcerias ao redor do globo é um caminho sem volta.

O cenário de 2026 desenha um mundo onde a influência americana é medida cada vez mais pela utilidade imediata do que pelo legado de cooperação. A forma como essa percepção influenciará os próximos ciclos de negociações comerciais e tratados de defesa será o teste definitivo para a diplomacia dos EUA. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Visual Capitalist