Na selva de Yucatán, onde a estação chuvosa testava a resiliência da terra, um projeto inovador busca unir o futuro ao passado. Gonzalo Samaranch Granados, fundador da reserva e laboratório de biodiversidade Mestiza de Indias, acredita que "o futuro é ancestral". Ele se inspira na sabedoria maia de observar a natureza para cultivar, em 550 acres, uma variedade de produtos que vão de vegetais populares na Riviera Maya a grãos e ervas de profundo significado cultural para a comunidade maia local.
O projeto resgata a milpa, um sistema mesoamericano de plantio simbiótico que tradicionalmente envolve milho, feijão e abóbora – as Três Irmãs. Em Mestiza de Indias, essa prática é adaptada para a agricultura regenerativa, com o objetivo de não apenas produzir alimentos, mas também de restaurar o ecossistema e a cultura maia. Samaranch, um espanhol que trocou o mundo das artes pela fazenda, seleciona e preserva sementes nativas, como mak’ulan (folha de pimenta) e pepitas, além de buscar variedades raras como o tomatillo milpero e o ts’unu’un p’aak (tomate beija-flor), endêmico da região. Projetos paralelos incluem o cultivo de orquídeas de baunilha maia e a extração de mel de abelhas Melipona, uma espécie ameaçada e crucial para o ecossistema local.
O Sistema Milpa e Seus Guardiões
A filosofia por trás de Mestiza de Indias é a milpa, um conceito mesoamericano que transcende a agricultura. Ele representa uma forma de viver em harmonia com a natureza, devolvendo à terra mais do que se retira e revivendo culturas alimentares ancestrais. Esse modelo de cuidado com a terra, embora manifestado de formas distintas em diferentes culturas, encontra eco em iniciativas globais. Bruce Pascoe, na Austrália, perpetua tradições aborígenes de manejo da terra com Black Duck Foods; Michelle Joan Papillion, em Louisiana, lidera uma rede de soberania alimentar com Royal Queen Farms; e Johnny Ortiz-Concha e Maida Branch celebram ancestralidade e ecossistema com seu clube de jantar /shed.
Transformação Social e Econômica
O impacto de Mestiza de Indias estende-se para além da terra, alcançando a vila maia de San Pedro Chenchelá, a cerca de sete quilômetros da fazenda. A região, que enfrenta desafios como o êxodo de jovens para trabalhos na costa ou em cidades maiores e o impacto devastador do metanfetamina, encontra em Mestiza de Indias uma nova esperança. A fazenda emprega cerca de dez trabalhadores, a maioria mulheres, cujos maridos frequentemente buscam empregos sazonais longe de casa, o que desestrutura o ritmo de vida familiar e cultural.
Para combater essa disrupção, Martha Elena Chan Tuz, esposa maia de Samaranch e líder de projetos comunitários, fundou uma cooperativa de artesãs. Essas mulheres bordam à mão toalhas de mesa com intrincados pontos de cruz (xookbil chuy), cujas peças são vendidas para hotéis de luxo. "Elas têm independência, gerenciam seu tempo e podem conciliar o trabalho com suas responsabilidades domésticas", explica Samaranch. O projeto não só gera renda, mas também valoriza o artesanato local e fortalece a autonomia feminina, algo que é bem recebido pelos homens da comunidade, que se sentem aliviados com a contribuição financeira das esposas.
Alimentando a Comunidade e a Cultura
Como parte de seus salários, cada trabalhador de Mestiza de Indias recebe uma cesta de produtos frescos da milpa. Em um contexto onde as lojas locais oferecem principalmente alimentos processados e de longa duração, essa iniciativa garante que as famílias tenham acesso a comida saudável e nutritiva. "Pensamos que as pessoas que cultivam a comida deveriam comê-la", afirma Samaranch. Essa mudança na dieta tem um impacto visível, especialmente nas crianças. "Quando uma criança pergunta: 'Quando os berinjelas estarão prontos de novo?', sinto que estamos fazendo o certo." A fazenda não só fornece alimentos, mas também reconecta as novas gerações aos seus hábitos alimentares ancestrais, promovendo um senso de orgulho e pertencimento cultural.
Perguntas em Aberto e o Futuro
O sucesso de Mestiza de Indias demonstra o potencial da agricultura regenerativa e do resgate de saberes ancestrais para revitalizar comunidades. No entanto, a sustentabilidade a longo prazo desse modelo, especialmente em face das pressões econômicas e sociais da região, ainda é um ponto a ser observado. A capacidade de expandir o alcance do projeto, garantir que mais membros da comunidade se beneficiem diretamente e manter a autenticidade cultural enquanto se adapta às demandas do mercado são desafios cruciais. O futuro da milpa em Yucatán, e em outras regiões com práticas agrícolas similares, dependerá da contínua dedicação em equilibrar tradição, inovação e bem-estar comunitário.
Mestiza de Indias é um exemplo de como a reverência pela terra e pela cultura pode gerar um ciclo virtuoso de desenvolvimento social e econômico, provando que o conhecimento ancestral detém chaves valiosas para os desafios contemporâneos. A jornada para reconstruir a comunidade maia através da milpa está em andamento, com cada colheita e cada bordado representando um passo em direção a um futuro mais resiliente e autêntico.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Saveur





