A escalada de fraudes digitais na Espanha acendeu um alerta que ecoa no Brasil: a responsabilidade pela segurança do consumidor não pode mais recair apenas sobre o próprio usuário. A Associação de Usuários Financeiros (Asufin) cobrou publicamente medidas mais eficazes de bancos, operadoras de telecomunicações e do governo, após o Instituto Nacional de Cibersegurança (Incibe) registrar uma duplicação nas consultas sobre o tema no primeiro semestre, chegando a quase 100.000 ocorrências.

A tese da Asufin, segundo reportagem da Forbes Espanha, é que a arquitetura de segurança atual se tornou obsoleta. O argumento central é que não é mais razoável esperar que um cidadão comum consiga identificar um golpe perfeitamente desenhado com ferramentas de inteligência artificial. A sofisticação crescente dos ataques desloca o ônus da prova e da proteção para as instituições que controlam a infraestrutura financeira e de comunicação.

A culpa não é (só) da vítima

Os dados ilustram a gravidade do cenário. Nos últimos quatro anos, as incidências envolvendo falsos investimentos e criptomoedas se multiplicaram por sete, enquanto os registros de fraude bancária quadruplicaram. Para a associação, culpar a vítima por negligência quando a autenticação é burlada ou forjada é uma lógica que não se sustenta mais. A sofisticação dos ataques exige uma defesa sistêmica, não individual.

O debate na Espanha espelha a discussão que ganha corpo no Brasil, onde golpes como o do Pix e a clonagem de aplicativos são frequentes. A posição da Asufin é que os consumidores não podem arcar sozinhos com a fatura da luta contra o crime digital, especialmente enquanto se aguarda a implementação de regulações mais robustas, como o pacote legislativo europeu PSD3/PSR, que promete reforçar a segurança em pagamentos.

Responsabilidade compartilhada

As demandas apresentadas são concretas e miram os dois pilares da infraestrutura digital. Aos bancos, a Asufin exige mais investimento em sistemas que detectem operações suspeitas em tempo real, o bloqueio temporário de transações anômalas e a criação de protocolos de atendimento mais seguros e diretos, abandonando a premissa de que a autenticação de dois fatores é uma barreira infalível.

Para as operadoras de telecomunicações e plataformas digitais, a cobrança é por uma postura mais agressiva. Isso inclui o bloqueio proativo de SMS e chamadas que suplantam a identidade de instituições, a remoção imediata de anúncios e perfis fraudulentos sem a necessidade de denúncias individuais, e a criação de mecanismos ágeis para troca de informações entre os diferentes atores do ecossistema.

A mensagem é clara: a defesa contra a fraude digital deve ser uma camada de segurança embutida na infraestrutura, e não uma tarefa deixada para o elo mais fraco da corrente. A discussão na Espanha serve como um laboratório para um modelo de responsabilidade compartilhada que, inevitavelmente, chegará a outros mercados.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España