Os fundos listados na B3 atravessam um período de forte correção. Pressionados por um cenário de juros elevados, incertezas sobre a trajetória fiscal do país e a proximidade de um ciclo eleitoral, ativos como os fundos imobiliários (FIIs) acumulam perdas significativas no ano, com o movimento de queda se acentuando nos últimos meses. O Ifix, principal índice de FIIs, por exemplo, registra perdas superiores a 2,5% no acumulado do ano.

Nesse cenário de aversão ao risco, um novo relatório do BTG Pactual rema contra a maré. A análise do banco, divulgada nesta semana, defende que a correção abriu uma janela de oportunidade para o investidor com apetite para risco e horizonte de longo prazo. A tese é que boa parte do pessimismo já foi incorporada às cotações, criando uma assimetria favorável entre o preço atual dos ativos e seu valor patrimonial.

A tese do descolamento

O argumento central do BTG é que a fraqueza das cotas está mais ligada à percepção de risco macroeconômico e a uma mudança no fluxo de capital do que a uma deterioração generalizada dos fundamentos dos fundos. Os juros altos, por um lado, elevam a atratividade da renda fixa e, por outro, aumentam a taxa de desconto usada para valorar os ativos, pressionando especialmente os FIIs de tijolo. O quadro fiscal e as incertezas políticas adicionam mais uma camada de volatilidade.

O banco também aponta uma mudança relevante no perfil do investidor. A participação de pessoas físicas no volume negociado de FIIs caiu de 56% para 33% em um ano, enquanto investidores institucionais e estrangeiros aumentaram sua fatia combinada de 40% para 63%. Para o BTG, esse novo perfil, que tende a reagir mais rapidamente ao cenário e a movimentar volumes maiores, pode ter intensificado a pressão vendedora. Ainda assim, o relatório sustenta que episódios recentes de cortes de dividendos ou problemas de crédito são casos isolados e não indicam uma crise sistêmica.

Onde estão as oportunidades?

Com os preços deprimidos, o BTG enxerga valor em diversos segmentos. A análise destaca o chamado “duplo desconto” nos Fundos de Fundos (FOFs), que negociam abaixo do valor patrimonial enquanto suas carteiras também estão descontadas. Em lajes corporativas, o desconto médio chega a 36% do valor patrimonial, em um momento de melhora nos fundamentos de ocupação e aluguel em mercados como o de São Paulo.

Nos galpões logísticos e shoppings, a resiliência operacional, com vacância baixa e crescimento de vendas, respectivamente, sustenta a tese de investimento. Já nos fundos de recebíveis (papel), FI-Infras e Fiagros, o apelo está nos altos rendimentos — com dividend yields que podem superar 17% — e no carrego elevado proporcionado por taxas como o IPCA. O banco, no entanto, pondera que o retorno maior vem acompanhado de mais risco, exigindo uma análise criteriosa da qualidade de crédito e da gestão.

O relatório do BTG é um contraponto ao sentimento pessimista que domina o mercado. A aposta é que, para o investidor disposto a navegar a turbulência atual, os preços atuais oferecem um ponto de entrada atrativo. A questão que fica é se o banco está se antecipando a uma virada de mercado ou subestimando a persistência dos ventos contrários da macroeconomia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times