Mais da metade dos fundos soberanos globais (52%) identificou a concentração de mercado como o principal risco associado às suas alocações em inteligência artificial, segundo o estudo anual de gestão de ativos da Invesco. O levantamento destaca uma tensão clara entre o otimismo institucional quanto ao potencial transformador da tecnologia e a dificuldade prática de capturar valor sem ficar excessivamente exposto a um grupo restrito de gigantes do setor de tecnologia.

Apesar da cautela quanto à composição das carteiras, a confiança na IA permanece elevada: 77% dos fundos a consideram uma tecnologia transformadora com efeitos positivos de longo prazo, enquanto apenas 2% questionam seu impacto econômico real. A leitura aqui é que o desafio não reside na viabilidade da tecnologia, mas na arquitetura das alocações que, atualmente, refletem a dominância de poucas empresas em índices de mercado.

O dilema da infraestrutura e energia

Para contornar a concentração, os investidores estão migrando o foco da camada de software para a infraestrutura física. Cerca de 69% dos fundos soberanos priorizam investimentos voltados à produtividade e suporte material da IA. O relatório da Invesco aponta o suprimento de energia como a restrição determinante para a expansão da infraestrutura tecnológica nos próximos anos.

Este movimento transforma a estratégia de investimento em uma questão de segurança energética e infraestrutura pesada. A mudança é evidente nos dados: a infraestrutura passou a representar 9% do total de ativos sob gestão desses fundos em 2026, contra 4,9% em 2022, consolidando-se como a classe de ativo alternativo com maior crescimento no período de cinco anos.

Mecanismos de alocação e ETFs

A adoção de fundos cotados em bolsa (ETFs) também reflete essa busca por eficiência e liquidez. Com o mercado global de ETFs atingindo 19,5 trilhões de dólares ao final de 2025, o uso dessas ferramentas varia drasticamente conforme a natureza do investidor. Enquanto bancos centrais utilizam ETFs para exposição estratégica, fundos soberanos focam em alocação tática e gestão de liquidez.

Essa preferência por instrumentos mais dinâmicos permite que os fundos soberanos ajustem suas posições com maior agilidade frente a um mercado de tecnologia volátil. A estratégia reflete uma tentativa de equilibrar a necessidade de exposição ao crescimento tecnológico com a necessidade de governança e controle de risco em um ambiente de fragmentação geopolítica.

Tensões macroeconômicas e diversificação

Além do risco de concentração, o cenário macroeconômico pressiona a gestão de reservas. Bancos centrais demonstram preocupação crescente com a dívida dos Estados Unidos, com 61% dos gestores notando um impacto negativo na posição do dólar como reserva de valor. Embora a diversificação para fora da moeda americana seja um movimento real, o relatório observa que ela é limitada pela ausência de alternativas globais escaláveis.

O ouro, portanto, reafirma seu papel como pilar de proteção contra a inflação, com um terço dos bancos centrais planejando aumentar suas alocações nos próximos três anos. Essa busca por ativos reais e tangíveis, tanto em infraestrutura tecnológica quanto em reservas tradicionais, sugere um movimento de preservação de capital em um mundo cada vez mais incerto.

O futuro da alocação soberana

O que permanece em aberto é a capacidade do mercado de oferecer alternativas viáveis que não dependam da infraestrutura das mesmas empresas que concentram o setor de IA. A transição energética e a descentralização da capacidade computacional serão, possivelmente, os próximos campos de batalha para esses investidores.

A observação dos próximos ciclos de investimento indicará se os fundos soberanos conseguirão, de fato, diversificar suas carteiras sem abrir mão do crescimento tecnológico. A questão central é se o mercado conseguirá criar um ecossistema mais robusto e menos dependente de poucos players globais.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España