A Gabriel, startup que constrói uma malha de segurança privada com câmeras inteligentes voltadas para a rua, atingiu o ponto de equilíbrio operacional. O marco, alcançado após seis anos de operação e três meses consecutivos de Ebitda positivo, sinaliza uma nova fase para a companhia, que já levantou mais de R$ 120 milhões com investidores como SoftBank, Astella e Qualcomm Ventures.

O equilíbrio financeiro coincide com uma expansão geográfica acelerada. Desde janeiro, a empresa saltou de quatro para 45 cidades, majoritariamente no eixo Rio-São Paulo. A leitura aqui é que a Gabriel graduou-se de um modelo onde o crescimento era uma condição de sobrevivência para um em que a expansão se torna uma alavancagem estratégica. “Antes, se a gente não crescesse, a Gabriel quebrava (...) Agora, crescer virou uma opção”, afirmou o CEO e cofundador Erick Coser, em entrevista ao portal Startups.

A máquina de receita recorrente

O motor por trás do break-even é a combinação de um modelo de receita recorrente com uma operação verticalizada e automatizada. A Gabriel instala suas câmeras, batizadas de “Camaleões”, em condomínios e comércios, cobrando uma assinatura mensal com ticket médio de R$ 800 e contratos de quatro anos. Hoje, são quase 22 mil câmeras ativas, gerando 4 milhões de leituras de placas de veículos por dia, dados que são repassados gratuitamente às polícias militares.

A previsibilidade do faturamento, reforçada por uma taxa de retenção líquida de 115% na primeira safra de renovações, permite que a empresa reinvista o caixa gerado. A eficiência operacional vem da verticalização: a Gabriel desenvolve seu próprio hardware em parceria com um fornecedor chinês, o que, segundo Coser, reduz o custo de seus roteadores pela metade. Essa estrutura permitiu que a receita dobrasse no último ano com uma equipe de tamanho similar à de 2022, quando a escala era muito menor.

O mapa da expansão

A estratégia de crescimento da Gabriel é de adensamento, não de pulverização. A empresa foca em expandir suas fronteiras a partir de territórios já consolidados, bairro a bairro. Essa tática foi crucial para a rápida expansão na Grande São Paulo, que recentemente se tornou seu maior mercado, superando o Rio de Janeiro, seu berço. A companhia aprendeu com erros iniciais em São Paulo, que permitiram a reação de concorrentes, e agora aplica um modelo de lançamento mais agressivo, como o feito no Rio e em Belo Horizonte.

Com o caixa positivo, a Gabriel agora mira novos movimentos. A empresa planeja lançar um produto para residências, o “Bairro Seguro”, visando os 90% de brasileiros que não vivem em prédios. A estratégia de M&A também foi refinada: em vez de adquirir tecnologia — uma aquisição anterior, da Retina Vision, não foi aproveitada —, a startup agora busca comprar carteiras de clientes de empresas de facilities que tentaram replicar seu modelo e falharam. É um sinal de maturidade e pragmatismo.

Para o futuro, a empresa planeja evoluir sua análise de dados para além de placas, identificando atributos como cor de veículos e roupas de pedestres, e transformar seu aplicativo em uma plataforma de segurança pessoal para o morador. A captação de novas rodadas de investimento, antes uma urgência, agora é uma ferramenta opcional para acelerar um plano já sustentável. Em um mercado que reavalia a máxima do “crescimento a qualquer custo”, a Gabriel parece ter encontrado seu próprio equilíbrio.

Com reportagem de Brazil Valley

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