No coração de Madrid, entre fachadas históricas e vitrines que exibem o apelo das grandes grifes internacionais, a Galería Canalejas se prepara para um novo capítulo. O complexo de luxo, que nasceu sob os tetos do hotel Four Seasons, almeja diminuir sua dependência de um único mercado, atrair mais compradores espanhóis e transcender a experiência de uma simples jornada de compras. A ambição é consolidar um destino que integre moda, experiências, bem-estar e patrimônio em um dos locais mais singulares da capital espanhola.
Esta transição ocorre após um período de reestruturação da propriedade. A OHLA assumiu 100% da galeria, enquanto a Mohari, empresa do investidor Mark Scheinberg, ficou com o hotel. A definição dos ativos, concluída em abril de 2026, permitiu à construtora dos irmãos Amodio liderar o complexo comercial em solitário e traçar uma estratégia própria. Com a estrutura de propriedade resolvida e disputas sobre o food hall encerradas, o foco se volta agora para o cliente: quem visita a Canalejas, quanto gasta e o que o motiva a retornar. A resposta reside na diversificação da clientela, na atração de perfis com maior poder aquisitivo e na conquista do público nacional, que ainda percebe o espaço como distante ou restrito a visitantes internacionais.
Diversificação para além do turista americano
A Galería Canalejas tem visto cerca de 50% de seus clientes originarem-se dos Estados Unidos. Embora seja um mercado crucial, essa concentração expõe o complexo às flutuações econômicas e comerciais que afetam o consumo dos viajantes americanos. A nova fase, sob o controle integral da OHLA, visa diluir essa dependência, captar compradores de outras nacionalidades e fortalecer o apelo junto ao público espanhol. A incerteza comercial, incluindo a guerra tarifária impulsionada por Donald Trump e um possível imposto adicional de 15% sobre compras de turistas americanos, intensificou essa necessidade estratégica. Silvia Martínez de Tejada, diretora de Mercados Internacionais da Galería Canalejas, aponta os EUA como o mercado mais afetado. Ainda assim, a galeria identifica oportunidades para atrair americanos de alto poder aquisitivo, aproveitando a presença de grandes redes hoteleiras internacionais na cidade. O objetivo é elevar o gasto médio atual, que gira em torno de 3.000 euros, não apenas aumentando o número de visitantes, mas atraindo compradores com maior capacidade de consumo e oferecendo motivos para estenderem suas visitas.
Novos mercados e a ascensão de Madrid como polo de luxo
Além dos Estados Unidos, México e China figuram como mercados emissores importantes para a Galería Canalejas, com o Brasil ocupando a quarta posição entre os mercados mencionados. A expansão da presença nesses países é um dos focos da galeria, que busca atrair consumidores que hoje optam por outras áreas comerciais de Madrid. O Barrio de Salamanca é um destino consolidado para o público latino-americano de alto poder aquisitivo, enquanto a Castellana e Las Rozas Village atraem grupos turísticos, especialmente da Ásia. A Canalejas aspira a se inserir de forma mais proeminente nos roteiros de compras de luxo em Madrid e a capturar uma parcela maior desse gasto internacional. A estratégia se apoia no crescente apelo de Madrid como destino turístico e comercial no sul da Europa. Dados indicam um aumento de 15% nas vendas a turistas em 2025, com a capital concentrando 50% das devoluções de IVA (tax free), um incentivo significativo para o turismo de compras. Essa ascensão intensifica a competição entre as zonas comerciais da cidade, e para a Canalejas, o desafio é converter o interesse pela capital em visitas concretas, oferecendo uma proposta diferenciada.
Experiências de luxo: spa e patrimônio como diferenciais
A estratégia da Canalejas vai além da diversificação geográfica de seus clientes. O complexo planeja expandir sua oferta com um spa de 2.200 metros quadrados, com abertura prevista entre 2029 e 2030, sob gestão do Aire Ancient Baths Group e com um investimento de 21,5 milhões de euros. Esta nova instalação integrará serviços de bem-estar a uma proposta comercial até então focada em compras de luxo e grifes internacionais. A iniciativa visa ampliar os motivos para visitar o complexo, combinando compras com descanso e cuidado pessoal. O spa também reforça a aposta de Madrid em ser um destino que une alta gastronomia, compras de luxo, patrimônio e bem-estar. O valor arquitetônico do conjunto é outro diferencial, permitindo vincular a experiência comercial à história do centro de Madrid, algo que pode distingui-lo de outros espaços de luxo. Embora a abertura do spa ainda esteja distante, o investimento sinaliza uma aposta na ampliação de serviços para tornar o complexo um destino mais completo.
O desafio de seduzir o consumidor espanhol
Enquanto os Estados Unidos permanecem como mercado internacional principal e Ásia e América Latina oferecem oportunidades de crescimento, o consumidor espanhol representa um dos maiores desafios para a Galería Canalejas. A companhia busca aumentar o reconhecimento do espaço entre os residentes e integrá-lo aos seus roteiros habituais pela capital. Um dos obstáculos é o acesso, que a galeria tenta facilitar com medidas como o acesso ao estacionamento. Contudo, conquistar o público nacional exige reforçar a comunicação sobre sua oferta e ampliar os motivos para a visita. O posicionamento da Canalejas, associado a marcas internacionais e ao consumo de luxo, cria o desafio de aproximar o complexo de um público que nem sempre o considera uma opção cotidiana. A chave está em divulgar sua proposta comercial, seu entorno arquitetônico e as experiências que oferece para além das compras. A concorrência internacional também influencia as escolhas dos consumidores espanhóis, que por vezes preferem realizar compras de luxo em outras cidades europeias. Para a Canalejas, atrair esses compradores significa reforçar seu apelo como destino nacional, sem perder sua exclusividade. O acesso, a comunicação e a ampliação da oferta serão cruciais para avançar nesse objetivo, buscando conciliar a identidade de luxo com uma maior acessibilidade para quem vive ou visita Madrid.
A nova fase da Galería Canalejas começa com uma estrutura de propriedade mais clara e uma estratégia que combina diversificação internacional, aumento do gasto por cliente e uma oferta de experiências ampliada. A OHLA tem o desafio de transformar o controle total do complexo em uma etapa de consolidação comercial, com menor exposição a um único mercado e um relacionamento mais robusto com o comprador nacional. O mercado americano continuará essencial, mas a companhia busca maior peso para México, China e Brasil. O futuro spa adicionará um novo motivo para visitar o complexo, enquanto a conquista do público espanhol exigirá aproximar a proposta de quem ainda não a considera parte de seu roteiro habitual em Madrid. O luxo, neste contexto, não se mede apenas pelo preço de uma compra, mas pela capacidade de criar um lugar ao qual se queira retornar, onde o patrimônio dialogue com as marcas e onde o visitante encontre mais do que uma transação. Esse é o horizonte da Canalejas: deixar de ser uma parada para determinados turistas e se tornar um destino com identidade própria, capaz de atrair públicos diversos sem perder seu caráter exclusivo.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





