Um escritório de advocacia britânico, o Garfield AI, alcançou um marco significativo ao vencer um processo judicial no Reino Unido com o auxílio de inteligência artificial na elaboração de toda a documentação necessária. Segundo reportagem do La Nación, a firma utilizou a tecnologia para redigir declarações de testemunhas e preparar os autos do caso, enquanto a sustentação oral permaneceu a cargo de um advogado humano. A demandante, Tamires Camal Taquidir, foi vitoriosa e obteve uma indenização de 7 mil libras esterlinas.

O sucesso da Garfield AI, que já conta com a aprovação da Autoridade de Regulação de Solicitors (SRA) da Inglaterra e do País de Gales, sinaliza uma mudança na prática jurídica. O fundador da firma, Philip Young, defende que a tecnologia não substitui os operadores do direito, mas democratiza o acesso à justiça ao tornar a recuperação de dívidas financeiramente viável para casos que antes seriam abandonados devido aos altos custos processuais.

O papel da regulação e a confiança no sistema

A ascensão de lawtechs baseadas em IA ocorre em um ambiente de cautela, marcado por episódios anteriores de desinformação judicial. O setor jurídico global viu casos de advogados que utilizaram modelos de linguagem genéricos para inventar jurisprudências, resultando em sanções e anulações de sentenças, inclusive com precedentes registrados no Brasil e na Argentina. A diferença fundamental no caso da Garfield AI reside na especialização da ferramenta.

Diferentemente dos modelos de uso geral, as soluções jurídicas modernas estão sendo treinadas especificamente por profissionais do direito. Esse processo de curadoria visa eliminar as chamadas alucinações, garantindo que os dados utilizados possuam base real e veracidade técnica. A validação regulatória da SRA é o pilar que sustenta essa transição, diferenciando o uso responsável da tecnologia de experimentos amadores que comprometeram a integridade de tribunais no passado.

Mecanismos de eficiência e custo-benefício

O modelo de negócio da Garfield AI foca em reclamações de dívidas, um segmento onde o tempo e a burocracia são os principais entraves. Ao automatizar a redação de documentos, a firma reduz drasticamente a carga horária dedicada a tarefas repetitivas. Esse ganho de eficiência permite que o escritório atue em um volume de demandas superior ao de uma estrutura tradicional, tendo já gerido mais de 600 processos com uma recuperação de 500 mil libras para seus clientes.

A dinâmica aqui é clara: a IA atua como um facilitador operacional. Enquanto a estratégia e a oratória permanecem humanas, a inteligência artificial processa o volume de informações necessário para construir uma base documental robusta. Isso transforma a advocacia em uma prática menos dependente de horas faturáveis em tarefas braçais e mais voltada para a gestão estratégica de resultados.

Implicações para o ecossistema jurídico

A vitória no Reino Unido coloca pressão sobre os escritórios tradicionais, que agora enfrentam uma concorrência baseada em tecnologia de baixo custo. Para os reguladores, o desafio é manter a segurança jurídica sem sufocar a inovação. No Brasil, onde a digitalização do Judiciário é avançada, o precedente britânico pode acelerar a adoção de ferramentas similares, desde que acompanhadas por fiscalização rigorosa sobre a procedência dos dados processados pelas máquinas.

Para os consumidores, a promessa é a redução das barreiras de entrada para a justiça. Muitos litígios de pequeno valor deixam de ser ajuizados porque o custo do advogado supera o benefício da causa. Se a IA conseguir reduzir esses custos, um novo mercado de acesso à justiça pode surgir, permitindo que cidadãos comuns recuperem valores que hoje são perdidos por ineficiência do sistema.

O futuro da advocacia assistida

O que permanece incerto é a reação dos tribunais diante de um volume massivo de petições geradas por IA. A preocupação com o entupimento de casos e a necessidade de novas diretrizes éticas para a produção de provas são temas que dominarão os próximos anos. A tecnologia provou ser capaz de vencer um caso, mas a sustentabilidade desse modelo depende da aceitação institucional.

O debate agora migra da viabilidade técnica para a governança. Observar como a SRA e outros órgãos internacionais tratarão a responsabilidade civil das lawtechs em caso de erros será crucial para determinar a velocidade da adoção global. A advocacia entra em uma nova fase, onde a ferramenta, e não apenas o conhecimento, define a competitividade.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · La Nación — Tecnología