A proximidade da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe uma mudança drástica no posicionamento dos fundos multimercados brasileiros. Segundo levantamento da XP realizado entre 8 e 12 de junho, 80% das 25 casas consultadas migraram para posições compradas em dólar, um contraste acentuado frente a abril, quando a totalidade dos gestores apostava na desvalorização da moeda americana.

Este movimento de saída do chamado "kit Brasil" — que englobava apostas combinadas em bolsa local e valorização do real — reflete uma reavaliação tática diante da deterioração das expectativas macroeconômicas. Enquanto a maioria dos gestores ainda projeta um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, levando-a a 14,25%, a convicção sobre a extensão do ciclo de afrouxamento monetário perdeu força.

O fim do consenso otimista

A inversão de rota no câmbio é o indicador mais claro da mudança de regime de fluxo. As posições compradas em real, que chegavam a 91% em abril, despencaram para 31% em junho, enquanto as posições vendidas saltaram de 9% para 69%. Analistas da XP observam que esse movimento não representa necessariamente uma resistência a um teste de convicção, mas um reconhecimento de que o ambiente externo e interno se transformou.

O cenário doméstico foi pressionado pela alta do petróleo, que reacendeu temores inflacionários, e pela proximidade do período eleitoral. Paralelamente, o fluxo global de capitais concentrou-se no financiamento do setor de Inteligência Artificial, atraindo recursos para bolsas asiáticas e deixando os ativos brasileiros em segundo plano, o que contribuiu para a perda de tração do mercado acionário local.

Dinâmica de juros e inflação

Embora a expectativa de curto prazo ainda contemple um alívio na taxa Selic, a visão de longo prazo tornou-se mais conservadora. A projeção para a taxa básica de juros ao final de 2026 subiu para 14,1%, impulsionada por riscos inflacionários persistentes e pela dinâmica global de commodities. A inflação esperada para o mesmo período também foi revista para cima, atingindo 5,2%.

Essa cautela é corroborada pela redução do apetite por ações brasileiras. O levantamento indica que as posições compradas na bolsa recuaram de 71% para 60%, enquanto as posições vendidas dobraram, atingindo 20%. A parcela de gestores com visão negativa sobre o cenário doméstico dobrou, saltando de 19% para 38%, evidenciando um ambiente de maior desconfiança.

Implicações para a preservação de capital

O reposicionamento dos gestores sugere uma estratégia de defesa. O aumento das posições neutras nas carteiras aponta para uma tática de preservação de capital, aguardando maior clareza sobre o controle da inflação e os desdobramentos políticos. Para os investidores, a proteção via dólar tornou-se o instrumento preferencial de hedge em um momento de incerteza elevada.

O mercado brasileiro agora enfrenta o desafio de recuperar a credibilidade diante de um cenário global que exige prêmios mais altos para ativos de risco. A dinâmica entre a necessidade de estímulo econômico e o controle das expectativas inflacionárias continuará a ditar o ritmo das decisões dos multimercados nos próximos trimestres.

Perspectivas e incertezas

O que permanece incerto é a duração dessa postura defensiva. A eficácia das medidas de controle inflacionário e a estabilidade do quadro eleitoral serão determinantes para que o apetite ao risco retorne aos níveis observados no início do semestre.

Investidores e reguladores devem monitorar se o fluxo de capital para o exterior se intensificará caso os juros americanos permaneçam em patamares elevados, mantendo a pressão sobre as moedas emergentes e limitando o espaço para manobras de política monetária no Brasil. Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney