Às vésperas da eleição presidencial, o Goldman Sachs emitiu um alerta sobre a ausência de um plano fiscal robusto por parte dos dois principais candidatos: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL). Segundo análise dos economistas Alberto Ramos e Panteleymon Semka, o vencedor terá como tarefa mais premente a gestão da fragilidade das contas públicas e o controle da crescente dívida do país. A falta de clareza nas propostas fiscais é vista como um ponto de atenção para investidores e mercados.

Ausência de Roteiro Fiscal Claro

O diagnóstico do Goldman Sachs aponta para déficits nominais persistentes, que ultrapassam 8% do Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos quatro anos, um endividamento público elevado e uma regra fiscal considerada flexível e com pouca credibilidade. As projeções do banco indicam que a dívida bruta do governo geral pode atingir 83,1% do PIB em 2026 e avançar para 86,9% em 2027. O déficit nominal, por sua vez, deve permanecer acima de 8% do PIB. Essa dificuldade em reverter a trajetória de deterioração fiscal é atribuída à rigidez das despesas, à vinculação de receitas e a uma carga tributária já alta, limitando a margem de manobra do próximo governo.

Caminhos Distintos, Desafio Comum

Embora a estratégia fiscal detalhada esteja ausente, o Goldman Sachs vislumbra abordagens distintas para um eventual governo Lula ou Bolsonaro. No cenário de um quarto mandato de Lula, o banco espera medidas pontuais para conter gastos primários e possíveis iniciativas para aumentar a carga tributária, mantendo a premissa de que o setor público e estatais são motores de crescimento. Para uma Presidência de Jair Bolsonaro, as expectativas incluem menor risco fiscal, com foco em reformas, privatizações, concessões e redução do tamanho do Estado, além de uma regra fiscal mais rigorosa. Contudo, em ambos os casos, a falta de detalhamento sobre como enfrentar o desequilíbrio fiscal é um ponto de preocupação.

Impacto no Ajuste e Juros

Uma resposta fiscal convincente, segundo o Goldman, poderia abrir espaço para a redução da taxa básica de juros (Selic). O mercado, ao perceber clareza, determinação e senso de urgência no enfrentamento das vulnerabilidades fiscais, tenderia a recompensar o governo, permitindo uma normalização mais ampla e prolongada da política monetária. O banco projeta a Selic em 13,75% ao ano no fim de 2026 e em 12% em 2027. No entanto, o ajuste fiscal ocorrerá em um contexto de desaceleração econômica, com projeções de crescimento do PIB de 2% para este ano e 1,2% em 2027, e inflação em torno de 5,1% e 4,5%, respectivamente. O desafio de longo prazo será elevar o potencial de crescimento, atualmente limitado por baixo investimento, baixa produtividade e altos custos de energia e impostos.

O Papel Decisivo do Congresso

Independentemente do resultado eleitoral, o Congresso Nacional terá um papel crucial. O Goldman Sachs prevê um Legislativo fragmentado, autônomo e inclinado à centro-direita, o que exigirá a formação de amplas coalizões para governar. Partidos de centro deverão impor limites tanto a aumentos de impostos quanto a expansões de gastos permanentes sem lastro. Ao mesmo tempo, a disposição para aprovar reformas de maior alcance e medidas impopulares pode ser reduzida, com a troca de apoio por cargos e recursos orçamentários. A capacidade de negociação do futuro presidente será, portanto, determinante para transformar intenções de ajuste em ações concretas, com o mercado aguardando o desfecho das promessas fiscais diante da realidade política e econômica.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times