O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, anunciou nesta quarta-feira, 27, a abertura de um processo administrativo sancionador contra o iFood e a Keeta. A medida, articulada em conjunto com a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon), visa punir o suposto descumprimento de uma portaria federal que exige transparência das plataformas de entrega sobre a divisão dos valores pagos pelos usuários entre a empresa e o entregador.

Segundo o governo, enquanto competidores como Uber e 99 teriam se adequado às exigências de transparência, as duas empresas mencionadas permanecem em situação de irregularidade. O processo pode resultar em multas que alcançam o teto de R$ 14 milhões, sinalizando uma postura mais rigorosa do Executivo na fiscalização das operações de aplicativos de entrega no país.

O embate pela transparência algorítmica

A exigência de transparência nos repasses faz parte de um esforço mais amplo do governo federal para regular a economia de plataformas e mitigar a opacidade que caracteriza o cálculo de remuneração dos trabalhadores. A portaria da Senacon atua como um instrumento de proteção ao consumidor e ao trabalhador, ao forçar as empresas a detalharem a estrutura de custos e margens de lucro retidas sobre cada serviço prestado.

Historicamente, a resistência das plataformas de entrega em abrir seus dados de precificação tem sido um ponto de atrito constante entre o setor privado e os órgãos reguladores. A tese do governo é que a falta de clareza prejudica a tomada de decisão dos motoristas e a percepção de valor por parte do consumidor final, criando uma assimetria de informações que favorece o poder de mercado das gigantes do setor.

Mecanismos de pressão e conformidade

O mecanismo de sanção administrativa é a ferramenta escolhida pelo Estado para forçar uma mudança de comportamento sem necessariamente recorrer a mudanças legislativas profundas neste momento. Ao citar o cumprimento das regras por parte da Uber e da 99, o governo utiliza um argumento de paridade competitiva para isolar o iFood e a Keeta, pressionando-as a se adequarem sob o risco de prejuízo financeiro e de imagem.

Essa dinâmica revela uma estratégia de regulação incremental. O governo monitora o mercado e utiliza a Senacon para identificar desvios, aplicando multas como forma de sinalizar que a autoridade regulatória não tolerará o descumprimento de normas técnicas. O prazo de 20 dias concedido a outras empresas monitoradas indica que a fiscalização não se limitará a esses dois casos, mas deve escalar para todo o ecossistema de entregas por aplicativo.

Implicações para o ecossistema de plataformas

Para o setor de tecnologia e logística, a ação governamental traz um alerta sobre a crescente necessidade de conformidade regulatória no Brasil. Empresas que operam modelos de negócio baseados em algoritmos complexos de precificação agora enfrentam a exigência de traduzir essas operações para uma linguagem compreensível e auditável pelos órgãos de defesa do consumidor.

O impacto para os stakeholders é ambivalente. Se por um lado o consumidor ganha clareza sobre o destino do seu pagamento, por outro, as plataformas podem enfrentar custos operacionais maiores para adaptar seus sistemas de interface e reporte de dados. A tensão entre o modelo de negócio das plataformas e a necessidade de transparência pública tende a permanecer como um pilar central das discussões sobre o futuro do trabalho por aplicativo no Brasil.

O futuro da regulação digital

A eficácia dessa medida ainda será testada na prática, especialmente no que diz respeito à capacidade da Senacon de fiscalizar a precisão dos dados reportados. Além disso, a reação das empresas, que podem optar pela via judicial para contestar as multas, definirá o alcance real dessa política pública de transparência.

O que se observa é um cenário onde a regulação não busca apenas o fim da escala 6x1, mas a própria estruturação da transparência algorítmica. O desdobramento deste processo indicará se a pressão governamental será suficiente para transformar a cultura das plataformas de entrega ou se resultará em um prolongado conflito jurídico entre o Estado e as empresas de tecnologia.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney