A Gravitics, uma startup de hardware espacial fundada em 2021, está pavimentando um caminho pouco ortodoxo para os mercados de capitais. A empresa planeja levantar US$ 125 milhões e listar suas ações na Nasdaq por meio de uma fusão com a Non-Invasive Monitoring Systems, uma "shell company" (ou empresa de fachada) listada em mercado de balcão que encerrou suas operações em 2019.

A manobra, conhecida como "reverse takeover" (ou aquisição reversa), é um atalho para o processo tradicional de uma oferta pública inicial (IPO), que costuma ser mais longo e custoso. A estratégia sinaliza a imensa necessidade de capital de empresas de "deep tech" como a Gravitics e a busca por vias alternativas de financiamento para sustentar ciclos de desenvolvimento que se estendem por anos, antes mesmo de um produto chegar ao mercado — ou, neste caso, à órbita.

Um IPO pela porta dos fundos

Um "reverse takeover" permite que uma empresa privada se torne pública ao adquirir o controle de uma companhia já listada, mas inativa. A estratégia, embora menos comum hoje, tem precedentes notórios, como nos casos de Berkshire Hathaway e T-Mobile US. Ela ecoa o recente frenesi dos SPACs (Special Purpose Acquisition Companies), que também prometiam uma rota expressa para a bolsa, mas que esfriaram em meio a resultados decepcionantes e maior escrutínio regulatório.

Para a Gravitics, a lógica é a mesma: velocidade. Em vez de passar meses em um roadshow para um IPO, a empresa funde-se a uma estrutura pré-existente e ganha acesso quase imediato aos investidores do mercado público. A operação é uma aposta calculada de que a agilidade na captação de recursos supera os riscos associados a um mecanismo financeiro menos convencional, conforme detalha reportagem do GeekWire.

A aposta antes da órbita

Apesar de ainda não ter lançado nenhum hardware ao espaço, a Gravitics já acumula um portfólio de contratos que validam sua tese. A empresa tem um acordo de US$ 125 milhões com a Axiom Space para fornecer um módulo pressurizado para a futura estação espacial comercial, além de financiamento da NASA e da Força Espacial dos EUA para múltiplos projetos. Recentemente, foi selecionada pela Lockheed Martin para um contrato de "importância nacional".

Esses contratos funcionam como um selo de credibilidade. A Gravitics está, na prática, usando essa validação de grandes clientes institucionais e governamentais como uma procuração para convencer o mercado de capitais a financiar sua visão de longo prazo. A oferta pública visa transformar a promessa contida nesses contratos em capital tangível para, enfim, construir e lançar seus módulos orbitais.

O movimento da Gravitics será um termômetro importante para outras startups de capital intensivo. A questão que fica é se os investidores do mercado público, notoriamente focados em resultados trimestrais, terão o apetite e a paciência para uma companhia cujo principal produto ainda está a anos de distância de sua estreia operacional. O sucesso da estratégia pode abrir uma nova porta de financiamento para a próxima geração de empresas de tecnologia espacial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · GeekWire