O icônico estádio mexicano, historicamente conhecido como Estádio Azteca, reabriu suas portas em março deste ano após um extenso processo de modernização. Agora denominado oficialmente Estadio Banorte, o local se prepara para sediar a abertura da Copa do Mundo de 2026, um marco que reacendeu o debate sobre quem detém, de fato, a propriedade do coloso de Santa Úrsula.

Contrário ao senso comum que vincula o ativo diretamente ao Grupo Televisa ou ao Grupo Financiero Banorte, a propriedade do recinto reside no Grupo Ollamani. Esta entidade, listada na Bolsa Mexicana de Valores, surgiu como uma cisão estratégica da Televisa, mantendo sob seu guarda-chuva ativos de entretenimento e esportes, incluindo o Club América.

A estrutura do Grupo Ollamani

O Ollamani — termo em náhuatl que remete ao jogo de bola — consolidou-se como uma empresa independente, embora preserve laços históricos profundos com a família Azcárraga. A companhia integra cinco unidades de negócio focadas em esportes e entretenimento, sendo o estádio um dos seus pilares centrais de operação. Sob a presidência de Emilio Azcárraga Jean, o grupo busca profissionalizar a gestão de ativos que, anteriormente, operavam de forma menos segmentada dentro do conglomerado televisivo.

Como uma empresa de capital aberto, o Ollamani oferece uma camada de transparência financeira que permite observar o peso dessas operações no mercado. Com vendas reportadas na casa dos 6 bilhões de pesos em 2024, a empresa demonstra uma tentativa de isolar riscos e atrair investidores focados no setor de entretenimento esportivo, distanciando a volatilidade do estádio do core business de radiodifusão da Televisa.

O papel do Banorte no financiamento

O Grupo Financiero Banorte atua em uma frente distinta: a de parceiro comercial e principal credor. A mudança de nome para Estadio Banorte reflete um contrato de naming rights e publicidade, mas a relação financeira é mais complexa. O banco estruturou uma linha de crédito de 2,1 bilhões de pesos para viabilizar a modernização necessária para a FIFA, com vencimento em 2037.

Este arranjo financeiro é um exemplo de como o mercado bancário mexicano se posiciona frente aos grandes eventos globais. O crédito, que conta com garantias sobre ativos da operadora, possui uma estrutura de pagamento escalonada com período de carência, evidenciando que o banco não é dono do imóvel, mas um participante interessado na rentabilidade futura do projeto durante e após a Copa do Mundo.

Implicações para o ecossistema

Para o mercado mexicano, a transação ilustra uma tendência de especialização na gestão de infraestrutura esportiva. Ao separar o estádio da Televisa, o grupo permite que o ativo busque fontes de receita próprias, como o uso de tecnologias de ponta, incluindo gramado híbrido e conectividade Wi-Fi 6, que elevam o padrão de hospitalidade e monetização por assento.

Essa dinâmica levanta questões sobre a sustentabilidade de longo prazo de arenas multiuso. Enquanto o Banorte garante o retorno do capital investido via juros e exposição de marca, o Ollamani enfrenta o desafio de manter a operação rentável em um cenário onde a concorrência por grandes eventos esportivos e de entretenimento se torna cada vez mais globalizada e exigente.

Perspectivas para o pós-Copa

O futuro do Estadio Banorte permanece atrelado à capacidade da gestão em converter a modernização em fluxo de caixa recorrente. A pergunta que resta é se a estrutura de dívida, com vencimento estendido, será compensada pelo aumento da receita operacional pós-2026.

Acompanhar a performance das ações do Ollamani e o cumprimento das metas de pagamento do crédito bancário será fundamental para entender se este modelo de financiamento se tornará um padrão para outros estádios na América Latina. O sucesso do projeto será testado não apenas pela qualidade técnica do estádio durante o Mundial, mas pela solidez financeira que a estrutura de governança atual conseguirá sustentar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Expansión MX