Para bilhões de pessoas, a Copa do Mundo é mais que um torneio. É um ritual secular, um repositório de memórias coletivas e uma das poucas arenas onde o orgulho nacional ainda se manifesta de forma quase pura. É um legado passado entre gerações. O que acontece, então, quando alguém tenta colocar um preço nesse legado? Esta é a pergunta que ecoa nos corredores do futebol global desde que a FIFA, sob a liderança de Gianni Infantino, revelou seu plano mais recente e controverso.

A proposta, segundo reportagem da Fast Company, é criar uma nova empresa para gerir as operações comerciais dos torneios da FIFA, incluindo a própria Copa, e vender uma participação minoritária a investidores privados. O objetivo declarado é “desbloquear valor comercial que antes não era capturado”. Entre os potenciais compradores está a Thrive Eternal, uma empresa de capital liderada por Josh Kushner. A lógica do capital é fria e direta, mas ela colidiu com uma força igualmente poderosa: a cultura do futebol.

A linha vermelha

A reação foi imediata e sísmica. As principais confederações do planeta formaram uma frente unificada contra o que consideram uma profanação. A UEFA, que representa as potências europeias, foi categórica: “Rejeitamos unânime e inequivocamente a proposta”. A entidade, que reúne 55 federações, ameaçou um boicote a todas as competições da FIFA se o plano avançar. Em um comunicado duro, afirmou que “a Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento”.

O coro de desaprovação rapidamente atravessou o Atlântico. A CONCACAF, que inclui os anfitriões da próxima Copa — EUA, México e Canadá —, e a Confederação Asiática de Futebol (AFC) se juntaram à oposição. As críticas não se limitam ao mérito, mas também ao processo: as entidades apontam a falta de consulta, os prazos artificiais e a ausência de governança adequada. A mensagem é clara: há uma linha que o dinheiro não pode cruzar.

O jogo que vale mais que o placar

A FIFA, por sua vez, tentou controlar os danos. Em nota, a organização afirmou que “ninguém está vendendo o futebol” e que tudo não passou de um mal-entendido alimentado por reportagens incorretas. Prometeu um processo de consulta democrático, mas não retirou a proposta da mesa. O impasse está criado, e ele é mais profundo do que uma simples disputa de governança.

Acostumada a navegar por escândalos de corrupção e decisões polêmicas, a FIFA pode ter, desta vez, tocado em um nervo exposto. A controvérsia força uma reflexão sobre a alma do esporte mais popular do mundo. O que está em jogo não é apenas um modelo de negócio, mas a própria definição do que é o futebol na era da hiper-comercialização. A questão que fica no ar não é se o plano de Infantino será aprovado, mas o que restará do espírito do jogo se, um dia, ele for.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company