A recente guerra envolvendo o Irã expôs uma vulnerabilidade sistêmica no Sudeste Asiático, revelando uma dependência excessiva de combustíveis fósseis transportados pelo Estreito de Hormuz. Segundo relatório da Agência Internacional de Energia (AIE) publicado nesta terça-feira, essa exposição a choques geopolíticos serve como um alerta crítico para a segurança energética da região, que viu seus custos de importação dispararem em meio ao conflito.
O cenário projetado pela agência é preocupante: sem uma diversificação acelerada das fontes de energia e das rotas de suprimento, a conta de importação do Sudeste Asiático pode saltar de US$ 80 bilhões em 2024 para US$ 245 bilhões até 2035. A crise forçou governos locais a reavaliarem prioridades de investimento, impulsionando iniciativas em energia solar, veículos elétricos e até o renascimento do interesse pela energia nuclear.
O choque de oferta e a resposta regional
O conflito gerou um estado de triagem energética em diversos países do Sudeste Asiático, resultando em inflação e aumento dos custos para consumidores e indústrias. De acordo com a AIE, o choque foi tão severo que, em momentos de crise, a região acabou recorrendo ao carvão como medida de contingência, o que representa um revés temporário para os objetivos de descarbonização. A necessidade de estabilidade forçou uma mudança profunda nas estratégias governamentais.
Fatih Birol, diretor executivo da AIE, enfatizou que a diversificação tornou-se uma prioridade central. O movimento não se limita apenas a respostas de curto prazo para mitigar preços, mas reflete uma reavaliação estrutural das políticas energéticas. Países como Indonésia, Vietnã e Filipinas, que possuem planos mais avançados para o uso de energia nuclear, agora enfrentam o desafio de alinhar processos regulatórios e de construção a uma demanda crescente por energia segura e independente.
Adoção acelerada de tecnologias descentralizadas
Diante da instabilidade, o modelo de geração distribuída ganhou tração, especialmente nas Filipinas, que declararam estado de emergência energética. Consumidores e pequenas empresas recorreram à instalação massiva de painéis solares em telhados como uma solução rápida para mitigar os altos preços das concessionárias. O país tornou-se, no primeiro trimestre de 2026, o segundo maior destino das exportações chinesas de tecnologia solar, com volumes três vezes superiores ao registrado no ano anterior.
No setor de transporte, a mudança também é evidente. As vendas de veículos elétricos na região dobraram em 2025, atingindo cerca de meio milhão de unidades, com um em cada cinco veículos vendidos sendo elétrico. O Laos, por exemplo, chegou a proibir a importação de veículos movidos a combustíveis fósseis para o restante de 2026, visando reduzir a dependência de petróleo importado e incentivar a transição tecnológica.
Implicações para a segurança e integração
Para superar as fragilidades apontadas, a AIE recomenda que os países reduzam a demanda por combustíveis importados por meio de redes elétricas mais eficientes e investimentos robustos em fontes renováveis, como eólica, hidrelétrica e geotérmica. A integração regional, por meio de iniciativas como a Rede Elétrica da ASEAN, é vista como um passo essencial para compartilhar recursos e aumentar a resiliência coletiva contra choques externos.
Embora o conflito no Oriente Médio tenha servido como um teste de estresse para o sistema atual, ele atua simultaneamente como um catalisador para mudanças estruturais. A barreira política que historicamente impediu uma maior integração regional pode ser superada pelo senso de urgência, conforme as nações percebem que a autossuficiência energética é, hoje, um componente inegociável da soberania nacional e da estabilidade econômica.
Perspectivas e incertezas futuras
O futuro da transição energética na região permanece condicionado à capacidade dos governos de manter o ritmo de reformas diante da volatilidade dos preços globais de energia. Mesmo com sinais de distensão no conflito, a expectativa é que os custos de combustíveis fósseis permaneçam elevados, mantendo a pressão por investimentos em energia limpa.
O que se observa agora é um ponto de inflexão onde a tecnologia e a necessidade econômica convergem para forçar uma mudança que, em tempos de normalidade, poderia levar décadas. A questão central é se a infraestrutura conseguirá acompanhar a velocidade da demanda por alternativas mais sustentáveis e autônomas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





