A Europa concluiu uma etapa fundamental para o desenvolvimento de suas futuras capacidades de defesa baseadas em tecnologia quântica. O projeto Adequade (Advanced, Disruptive and Emerging Quantum technologies for Defense), um consórcio com 31 parceiros de oito países, finalizou em junho sua fase inicial de pesquisa, consolidando avanços para sistemas que prometem assegurar a superioridade tecnológica do continente no campo de batalha.

Iniciada em 2022 e coordenada pela francesa Thales, a iniciativa contou com a participação de gigantes da defesa europeia como a italiana Leonardo, a alemã Diehl Defence e, notavelmente, a espanhola Indra. Financiado pelo Fundo Europeu de Defesa (EDF), o projeto não é apenas um exercício acadêmico: seu objetivo é acelerar a maturação de tecnologias com impacto operacional direto, como navegação resiliente sem depender de sistemas de satélite (GNSS) e detecção avançada de sinais.

A soberania quântica em jogo

A leitura estratégica do projeto Adequade vai além da inovação tecnológica. Trata-se de um movimento calculado para garantir a autonomia estratégica da Europa. Em um cenário de crescente sofisticação de ameaças, a dependência de sistemas como o GPS, vulneráveis a bloqueios ou ataques, é um risco que as forças armadas do continente não podem mais correr. A tecnologia quântica oferece uma alternativa robusta para navegação e detecção, imune a táticas de guerra eletrônica convencionais.

Nesse tabuleiro, o papel da Indra foi crucial. Segundo a empresa, ela liderou a definição dos cenários operacionais e dos requisitos de missão. Em outras palavras, a companhia não apenas contribuiu com o desenvolvimento técnico, mas ajudou a desenhar como essas novas capacidades serão integradas e utilizadas em operações reais. Este posicionamento como integradora de sistemas, que conecta a pesquisa de ponta à aplicação prática, é de alto valor estratégico e reforça a base industrial e tecnológica europeia para componentes quânticos críticos.

Além do campo de batalha

Os resultados do projeto estabelecem um roteiro para a transição dessas tecnologias do laboratório para o teatro de operações, seja em plataformas terrestres, navais, aéreas ou espaciais. De acordo com José Pérez, responsável pelo laboratório de tecnologia quântica da Indra, os avanços se alinham diretamente com as necessidades de futuros programas de defesa europeus e nacionais, servindo como ponto de partida para novas fases de desenvolvimento e aquisição.

Como é comum em programas de defesa de alta tecnologia, os benefícios devem transbordar para o setor civil. As mesmas tecnologias de navegação resiliente podem aumentar a segurança da aviação comercial e do transporte marítimo. Sensores quânticos mais precisos têm aplicação direta na observação da Terra, no monitoramento climático e na vigilância ambiental, gerando um retorno sobre o investimento que ultrapassa as fronteiras da segurança e defesa.

A finalização do Adequade não é um ponto final, mas o início de um novo ciclo de colaboração industrial e desenvolvimento. A corrida pela supremacia quântica é uma maratona, e a Europa demonstra ter um plano claro para não ficar para trás.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España