Hans Tung, sócio da Notable Capital e investidor em empresas como Airbnb e Coinbase, propõe uma visão provocadora sobre a atual onda de mudanças tecnológicas impulsionadas pela inteligência artificial. Longe de focar apenas em modelos de IA ou empresas inovadoras, Tung recorre à história, especificamente à Revolução Industrial, para argumentar que a verdadeira chave para a dominância tecnológica e geopolítica reside na infraestrutura. Em suas palavras, a capacidade de construir e escalar é mais definidora do que a própria invenção.

A Lição dos Navios de Aço e Ferrovias

Tung traça um paralelo com o século XIX, quando a Grã-Bretanha não foi necessariamente a inventora da máquina a vapor ou do aço, mas foi quem primeiro escalou o uso dessas tecnologias para construir navios de aço movidos a vapor. Essa infraestrutura permitiu o domínio naval e comercial global por mais de um século, sustentando até mesmo o conceito de livre comércio. A analogia se estende às ferrovias nos Estados Unidos. Tung as compara aos data centers da era da IA, afirmando que, assim como a infraestrutura ferroviária foi vital para o Norte vencer a Guerra Civil, a capacidade de processamento computacional é fundamental hoje. "Se você não tem computação suficiente para atender à demanda, não importa se você tem um modelo melhor", afirma Tung, destacando que os modelos vencedores serão aqueles "disponíveis". Sem a infraestrutura de transporte, recursos e tropas não podiam ser movidos eficientemente; sem a infraestrutura de computação, os melhores modelos de IA permanecem inúteis.

A Corrida pela Infraestrutura de Dados

Essa perspectiva lança luz sobre a competição geopolítica atual. Tung observa que a China tem investido massivamente em infraestrutura por décadas, construindo mais ferrovias de alta velocidade do que o resto do mundo combinado. Essa capacidade de construção em larga escala se reflete na indústria naval, onde a China responde pela maioria das novas encomendas globais. No que diz respeito aos data centers, a China detém cerca de 24 gigawatts de capacidade, enquanto os EUA possuem pelo menos 47 gigawatts. No entanto, os Estados Unidos enfrentam o desafio monumental de executar um boom de construção sem precedentes para atender à demanda de IA, que pode consumir uma parcela significativa do PIB nos próximos anos. A preocupação não é apenas com a capacidade, mas com a execução e a resiliência dessa infraestrutura diante de desafios como o fornecimento de energia e a oposição comunitária.

O Futuro é Construído, Não Apenas Inventado

A tese de Tung é clara: em um período de transformação socioeconômica impulsionada pela tecnologia, a invenção por si só não garante a liderança. É a infraestrutura robusta e escalável para suportar e alavancar essas inovações que definirá os vencedores. A capacidade de construir navios de aço, ferrovias ou data centers em escala é o que confere poder e influência. "Não vamos simplesmente vencer", adverte Tung, "temos que trabalhar duro para garantir que vençamos". A mensagem é um chamado à ação, enfatizando que a liderança na era da IA dependerá da capacidade de construir e manter a infraestrutura subjacente, um desafio que exigirá esforço estratégico e execução impecável.

O cenário atual, com a rápida evolução da IA, exige um olhar atento não apenas para os algoritmos e modelos, mas para a fundação física e digital que os sustenta. A analogia histórica de Tung sugere que os próximos anos serão definidos pela capacidade de empresas e nações de construir e gerenciar essa infraestrutura crítica, moldando o futuro geopolítico e econômico de forma tão profunda quanto os navios a vapor e as ferrovias moldaram o passado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune