O governo peruano confirmou que empresas chinesas poderão participar do desenvolvimento da Terminal Portuária de Corío, um investimento estimado em US$ 844,5 milhões. A decisão ocorre apesar dos receios manifestados pelos Estados Unidos em relação à crescente presença chinesa em infraestruturas estratégicas na América Latina. Luis del Carpio, presidente da Agência de Promoção da Inversão Privada (ProInversión), declarou que o Peru não impõe restrições a capital estrangeiro e que o projeto do Porto de Corío atrai interesse de investidores de diversas nacionalidades, incluindo EUA, China, Coreia e Japão.

Geopolítica portuária na América Latina

A participação chinesa em infraestruturas portuárias na América Latina tem sido um ponto de atrito geopolítico com os Estados Unidos. Washington tem expressado preocupação com o potencial uso dual dessas instalações, que podem servir tanto para fins comerciais quanto militares. O Porto de Corío, no sul do Peru, tem potencial para se tornar um importante nodo logístico, industrial e comercial, com conexões planejadas com Brasil, Bolívia e países da Ásia-Pacífico. A China, já principal parceiro comercial do Peru, controla o Porto de Chancay, o que demonstra sua estratégia de expansão na região. A decisão peruana de incluir a China em Corío, ignorando as objeções americanas, sinaliza uma política externa pragmática, focada em atrair o maior volume de investimento possível para o desenvolvimento de infraestrutura, mesmo diante de tensões geopolíticas.

O projeto 'Cidade-Porto Corío'

O projeto da Terminal Portuária de Corío é ambicioso e vai além da infraestrutura marítima. Prevê a construção de uma vasta cidade logística com mais de 34.000 hectares, que incluirá centros de distribuição, depósitos e parques industriais. A primeira fase demandará cerca de US$ 652 milhões, enquanto as fases subsequentes, com a construção de amarraderos adicionais e enlaces ferroviários, consumirão outros US$ 192,6 milhões. Os estudos do Governo Regional de Arequipa projetam a criação de mais de 50.000 empregos diretos e 150.000 indiretos, com um impacto estimado de 1,9% no PIB peruano apenas na primeira etapa. Luis del Carpio enfatizou que a verdadeira dimensão do projeto reside na capacidade de gerar indústria, emprego e atividade econômica, com o porto servindo como porta de entrada para um desenvolvimento mais amplo.

Implicações para os EUA e a China

A decisão do Peru de permitir a participação chinesa em Corío pode ser vista como um revés para os esforços dos EUA de conter a influência chinesa na América Latina. Enquanto os EUA buscam fortalecer laços e oferecer alternativas de investimento, a China continua a expandir sua presença através de projetos de infraestrutura de grande escala. Para a China, a participação em Corío reforça sua estratégia de acesso a mercados e recursos na região, além de consolidar sua posição como um parceiro econômico indispensável para países como o Peru. A postura do governo peruano, que busca equilibrar os interesses de diferentes potências, reflete a complexidade da geopolítica atual na América Latina, onde o desenvolvimento econômico e a soberania nacional frequentemente se entrelaçam com as rivalidades globais.

Perguntas em aberto

Resta saber como os Estados Unidos reagirão formalmente a esta decisão peruana e se haverá algum tipo de retaliação ou intensificação das negociações para oferecer alternativas de investimento. Além disso, é crucial observar a capacidade do Peru de gerenciar a complexa dinâmica entre seus parceiros comerciais e potenciais investidores, garantindo que o desenvolvimento do Porto de Corío ocorra de forma transparente e benéfica para a economia e a sociedade peruana. A execução do projeto, com a criação de empregos e o impulso ao PIB, será o principal termômetro do sucesso desta política de abertura a capital estrangeiro diversificado.

O governo peruano, ao abrir as portas do Porto de Corío para a China, demonstra uma aposta na diversificação de investimentos e na atração de capital para impulsionar seu desenvolvimento econômico, mesmo que isso signifique navegar em águas geopolíticas turbulentas. A forma como as relações com os EUA e a China se desdobrarão nos próximos anos será determinante para o futuro da infraestrutura e da influência na região.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España