A promessa de que o trabalho árduo e uma renda sólida bastariam para garantir a ascensão social e a casa própria parece ter se tornado uma relíquia do passado. Segundo um novo estudo do National Bureau of Economic Research (NBER), a capacidade de acumular riqueza está cada vez mais descolada do desempenho profissional individual, dependendo, em vez disso, do patrimônio acumulado pelas gerações anteriores.

Essa mudança estrutural ajuda a explicar o paradoxo atual do consumidor: mesmo com indicadores de mercado de trabalho resilientes em diversas economias, o pessimismo atinge níveis recordes. A percepção de que o esforço pessoal não é mais suficiente para transpor barreiras econômicas gera um sentimento de injustiça que permeia a sociedade, transformando o conceito de meritocracia em um ideal cada vez mais distante da realidade prática.

A falência da renda como motor de riqueza

O estudo utilizou uma base de dados de 3,4 milhões de famílias para mapear o fluxo intergeracional de recursos. A conclusão central é que a renda do trabalho explica apenas metade da desigualdade habitacional entre gerações. O fator determinante para a aquisição de um imóvel, hoje, é a capacidade da família de origem em prover suporte financeiro, seja através de transferências diretas de ativos, aval em empréstimos ou auxílio na entrada de financiamentos.

Para a vasta maioria da população, que não pertence ao topo da pirâmide de renda, a riqueza está quase integralmente atrelada à moradia e a fundos de pensão. Quando o acesso a esses ativos é bloqueado pelo custo de entrada, a mobilidade social trava. A pesquisa sugere que a "ajuda dos pais" substituiu a competência profissional como o principal preditor de sucesso financeiro no longo prazo.

O abismo entre salários e ativos

O mecanismo dessa estagnação é visível na relação entre preços de imóveis e salários médios. Em grandes centros urbanos, o valor das propriedades disparou para patamares que superam cinco vezes a renda mediana nacional, chegando a dez vezes em cidades como Los Angeles e São Francisco. O resultado é um cenário onde profissionais de alta renda, mesmo com mobilidade vertical no imposto de renda, permanecem excluídos do mercado de capitais imobiliário.

Essa dinâmica cria um funil de oportunidades onde apenas aqueles com suporte patrimonial prévio conseguem se estabelecer. O mercado, portanto, deixa de premiar apenas a produtividade e passa a valorizar a herança, criando um ciclo de desigualdade que o trabalho por si só não consegue romper. A economia, sob essa ótica, torna-se um jogo de soma zero para quem não possui lastro familiar.

Tensões sociais e o futuro do consumo

As implicações desse cenário são profundas, tanto para reguladores quanto para o mercado. O pessimismo do consumidor não é um fenômeno passageiro, mas um reflexo de uma barreira estrutural que impede o planejamento de vida de longo prazo. Quando as famílias priorizam a poupança para a entrada de um imóvel em vez da educação, o capital humano do país sofre uma deterioração silenciosa e perigosa.

No Brasil, onde o acesso ao crédito imobiliário e a desigualdade de acesso a ativos também são temas centrais, o paralelo é imediato. A dependência de heranças ou suporte familiar para a construção de patrimônio limita o dinamismo econômico, concentrando recursos em vez de distribuí-los com base na eficiência produtiva. O desafio para formuladores de políticas públicas é encontrar formas de desatrelar o acesso a ativos essenciais da riqueza herdada.

O que permanece incerto

A grande questão que emerge é até que ponto as instituições financeiras e o Estado conseguirão mitigar essa dependência do "banco da família". Sem mecanismos que facilitem a formação de patrimônio para quem depende exclusivamente do salário, a tendência é que o descontentamento social se aprofunde.

O monitoramento desses indicadores, como o nível de endividamento familiar atrelado a suportes intergeracionais, será fundamental. Resta saber se o mercado será capaz de inovar para criar novos modelos de acesso a ativos ou se a desigualdade de berço se tornará um traço permanente das economias desenvolvidas e emergentes. A trajetória do pessimismo do consumidor, nos próximos trimestres, será o termômetro dessa frustração crescente.

A desconexão entre o que se ganha e o que se consegue construir é, talvez, o maior desafio político da década. Enquanto a meritocracia for vista como um mito inacessível, a estabilidade das democracias liberais continuará sob pressão, forçando governos a repensar a distribuição de oportunidades muito além do salário mínimo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune