Uma nova corrida por recursos energéticos está ganhando tração, mas o alvo não é petróleo nem gás natural. Dezenas de startups e grupos de pesquisa ao redor do mundo mobilizam-se para explorar o chamado “hidrogênio geológico” — bolsões do gás produzidos naturalmente no subsolo. A promessa é a de uma fonte de energia versátil e com zero emissão de carbono, que dispensaria os processos industriais caros e poluentes da produção convencional de hidrogênio.
Empresas como a Koloma, que conta com o apoio de Bill Gates, já perfuram o solo americano em busca desse recurso. A tese é que, se apenas uma fração dos trilhões de toneladas de hidrogênio que o Serviço Geológico dos EUA estima serem geradas na crosta terrestre puder ser recuperada, a demanda global seria atendida por séculos. Contudo, como detalha uma reportagem da MIT Technology Review, a euforia inicial esbarra em uma questão fundamental: a viabilidade econômica. Até o momento, ninguém anunciou a descoberta de um reservatório comercialmente viável.
A caça às evidências
Os sinais de que o hidrogênio geológico é um fenômeno real estão se acumulando. Em uma mina no Canadá, a geoquímica Barbara Sherwood Lollar e sua equipe estimaram que cerca de 140 toneladas do gás escapam anualmente. Na Albânia, um estudo similar apontou para um volume de 200 toneladas por ano em uma mina de cromo. Os números são modestos, insuficientes para transformar a matriz energética global, mas servem como uma valiosa prova de conceito local, demonstrando que o aproveitamento é, em tese, possível.
Como aponta o geoquímico Laurent Truche, da Universidade Grenoble Alpes, na França, “o desafio restante não é provar que o hidrogênio natural existe, mas provar que ele pode ser produzido de maneira econômica e confiável em escala comercial”. A falta de dados públicos por parte das empresas, que competem por investimentos e áreas de exploração, torna a avaliação do potencial real ainda mais complexa.
Estimular ou extrair?
Diante da incerteza sobre grandes reservatórios, uma segunda frente de pesquisa ganha força: a produção estimulada. A ideia é injetar água, calor ou catalisadores em formações rochosas reativas para acelerar a geração natural de hidrogênio. A agência de projetos de pesquisa avançada em energia dos EUA, a ARPA-E, financia projetos com a meta de tornar essa produção comercialmente viável.
Um experimento recente em Omã ofereceu um vislumbre promissor. Após injetar água em um poço de um quilômetro, pesquisadores viram o gás emergir com 90% de pureza de hidrogênio. O resultado animou a comunidade científica, mas veio com uma ressalva crucial dos próprios pesquisadores: ainda não se sabe se o gás foi produzido pela estimulação ou se era um bolsão preexistente que foi liberado. Essa dúvida encapsula o estágio atual da indústria.
A busca pelo hidrogênio geológico saiu do campo da pura especulação acadêmica e entrou na fase de exploração industrial. No entanto, a jornada para transformar “gás borbulhando” em um poço experimental em uma fonte de energia confiável e escalável é longa. O mapa para esse tesouro subterrâneo ainda está sendo desenhado, e não há garantias de que levará ao pote de ouro.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · MIT Tech Review Brasil





