A ascensão da inteligência artificial (IA) está remodelando o mercado de trabalho de formas que vão muito além da contratação de engenheiros de machine learning e cientistas de dados. Embora esses papéis técnicos sejam cruciais para o desenvolvimento da IA, a verdadeira transformação pode residir na criação de empregos de "terceira ordem" – aqueles impulsionados pela riqueza e pelas novas demandas que a própria tecnologia gera. Essa perspectiva, muitas vezes negligenciada, sugere um futuro onde serviços de luxo, personalização e bem-estar ganham destaque.

A primeira ordem de impacto da IA envolve a automação de tarefas e a criação de empregos diretos. Ferramentas como ChatGPT e Claude Code já estão eliminando posições em call centers e tradução, ao mesmo tempo que demandam eletricistas para data centers e especialistas em algoritmos. Esse é o efeito mais visível e imediato. Em seguida, surgem os papéis de segunda ordem, focados na aplicação, suporte e iteração sobre a tecnologia. Exemplos incluem treinadores de robôs, investigadores de deepfakes ou subscritores de risco de IA – profissões que eram quase inimagináveis há poucos anos.

No entanto, é a terceira ordem de efeitos, os chamados "empregos de riqueza", que promete ser a mais transformadora a longo prazo. Tecnologias disruptivas, como a internet ou a própria IA, tendem a concentrar riqueza nas mãos de uma elite. Essa elite, por sua vez, busca indulgências e serviços extraordinários. Paralelamente, a eficiência gerada pela IA pode reduzir custos, aumentar lucros e, potencialmente, elevar salários médios, permitindo que uma parcela maior da população acesse bens e serviços que antes eram considerados supérfluos ou até ridículos.

Essa dinâmica se traduz em uma demanda crescente por serviços personalizados e intensivos em mão de obra, que LLMs e robôs dificilmente replicarão. Pense em planejadores de casamento, treinadores de CrossFit ou sommeliers de água – profissões que dependem de um certo nível de prosperidade para existir e prosperar. A tendência aponta para um aumento na procura por serviços de bem-estar, como instaladores de piscinas de imersão a frio, técnicos de sauna e massagistas, bem como gestores domésticos que cuidam de tarefas como lavanderia, compras e manutenção de veículos. Esses são os "empregos de luxo" que a IA pode viabilizar, consumindo uma parcela maior do orçamento familiar em serviços face a face e experiências emocionais.

A viabilidade desses novos empregos, contudo, depende crucialmente de a IA realmente gerar riqueza sustentável e distribuí-la de forma ampla. Se os custos de implementação da IA forem proibitivos ou se a riqueza gerada não alcançar a classe média, o potencial para a criação desses serviços de luxo será limitado. A capacidade de contratar um gestor doméstico, por exemplo, ainda é um privilégio distante para a maioria, mesmo que a ideia seja atraente. A questão central permanece: a IA criará riqueza suficiente e acessível para sustentar essa nova onda de empregos de serviço e personalização?

Com reportagem de Brazil Valley

Source · The Atlantic — Ideas