A inteligência artificial deixou de ser uma mera ferramenta de experimentação para se tornar um componente integral das operações empresariais. Essa transição, no entanto, impõe desafios significativos às estruturas organizacionais e às expectativas sobre os profissionais. Em vez de simplesmente integrar a IA em processos existentes, as empresas precisam repensar fundamentalmente a maneira como o trabalho é realizado. Stacy Dillow, vice-presidente executiva e chief people officer da HPE, destacou que a maior dificuldade não reside na adoção da tecnologia em si, mas na reconfiguração das metodologias de trabalho e das hierarquias corporativas que a sustentam. "Temos que nos forçar a pensar de forma diferente porque, se não estamos tentando mudar como trabalhamos, estamos apenas tentando adaptar e colocar a IA em um processo que não vai nos dar uma resposta diferente", afirmou Dillow durante o Fortune AIQ Summit.
A IA como catalisadora da reestruturação organizacional
A inteligência artificial está atuando como um poderoso catalisador para a reestruturação organizacional. A noção de organogramas fixos e hierarquias rígidas começa a se tornar obsoleta diante da agilidade e da capacidade de processamento da IA. Danielle Gonzalez, chief people officer da Palo Alto Networks, exemplifica essa mudança com a implementação de ferramentas como NotebookLM, Claude e Gemini, além de um agente de IA customizado que reduziu em 83% os tickets de TI e agora gerencia fluxos de trabalho em RH, finanças e jurídico. "As pessoas não estão mais ligando para mim, para seu parceiro de negócios de RH ou para alguém da área; elas estão usando o autoatendimento. Elas fazem uma pergunta ao agente, que consulta a informação e dá a resposta certa sobre onde elas se encaixam em seus respectivos 'globos' de atuação", explicou Gonzalez. Essa automação e autoatendimento liberam os profissionais para se concentrarem em tarefas de maior valor estratégico, exigindo, por sua vez, uma adaptação contínua às novas ferramentas e processos.
A nova competência: aprender e desaprender
À medida que a IA redefine as funções e os fluxos de trabalho, as empresas enfrentam a necessidade premente de cultivar uma força de trabalho adaptável. Isso implica não apenas contratar indivíduos com curiosidade e agência, mas também investir no desenvolvimento e na requalificação dos colaboradores existentes. A capacidade de "desaprender" antigas práticas e crenças torna-se tão crucial quanto a habilidade de aprender novas competências rapidamente. Gonzalez enfatiza a busca por "curiosidade, agência e aquelas pessoas que podem não apenas aprender algo em um ritmo acelerado, mas também desaprender o que pensavam ser verdade, para que possam abrir espaço para avançar". Essa mentalidade de aprendizado contínuo é fundamental para navegar em um ambiente de trabalho em constante evolução, impulsionado pela IA.
Avaliação de talentos e responsabilidade individual
A transformação impulsionada pela IA também impacta os métodos de recrutamento e avaliação de talentos. A Palo Alto Networks, por exemplo, adota "entrevistas observáveis" e hackathons para avaliar como os candidatos abordam problemas, com e sem o auxílio da IA, em vez de simplesmente pedir que relatem suas conquistas. "Acabaram os dias em que você se sentava para entrevistar alguém e pedia que a pessoa contasse tudo sobre suas conquistas", disse Gonzalez. "Queremos ver o que você consegue fazer". Para os funcionários atuais, a mensagem é clara: as empresas fornecerão as ferramentas e o treinamento, mas a responsabilidade final pela atualização de habilidades recai sobre o indivíduo. Drew Holler, chief human resources officer da construtora Lennar, resumiu essa expectativa: "Nós vamos fornecer todas as ferramentas e treinamentos, mas a responsabilidade de se requalificar também é do profissional. Você, como indivíduo, precisa assumir essa tarefa".
A adoção da IA no ambiente corporativo não é apenas uma questão de implementar novas tecnologias, mas de orquestrar uma mudança cultural profunda. A eliminação de estruturas rígidas e a ênfase na adaptabilidade e na aprendizagem contínua sinalizam um futuro onde a agilidade e a capacidade de "desaprender" serão as competências mais valorizadas. A jornada de transformação está apenas começando, e os líderes de RH desempenham um papel central em guiar suas organizações por essa nova era.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





