A proliferação de agentes, modelos e aplicações de inteligência artificial (IA) trouxe consigo um desafio cada vez mais premente para as lideranças empresariais: como determinar se os investimentos em tecnologia estão, de fato, gerando valor tangível para o negócio. A questão ganhou destaque durante o TI Inside Innovation Forum 2026, onde Telma Luchetta, sócia da EY em Financial Services Latam, apontou que o principal obstáculo reside em associar os custos e retornos da IA a uma agenda estratégica clara.

Segundo Luchetta, focar unicamente no custo de uma iniciativa pode distorcer a percepção de valor, pois uma aplicação mais cara pode, paradoxalmente, gerar ganhos significativamente maiores. A verdadeira eficiência só se revela quando variáveis como aumento do volume transacional ou melhoria no relacionamento com clientes são consideradas. Ela defende que as iniciativas de IA devem estar intrinsecamente ligadas aos objetivos estratégicos da organização, pois essa conexão permite decidir com mais clareza quais projetos devem continuar, ser refinados ou descontinuados, assegurando que os recursos sejam alocados onde o impacto estratégico é maior.

A responsabilidade pela eficiência chega às áreas de negócio

A crescente difusão da IA para além das equipes de tecnologia implica uma mudança na responsabilidade pelo seu acompanhamento. Com a tecnologia cada vez mais integrada às operações das áreas de negócio, a gestão do consumo e a avaliação do retorno não podem mais ser exclusividade do CIO ou do departamento de TI. A alta administração precisa liderar essa transição, conectando as iniciativas de IA aos grandes objetivos estratégicos da empresa e disseminando essa responsabilidade por todas as unidades de negócio.

A governança desempenha um papel crucial ao estabelecer padrões e melhores práticas, mas a apropriação das iniciativas e a responsabilidade pelos seus resultados devem recair sobre as unidades de negócio. Esse modelo colaborativo, envolvendo CFO, CTO, CIO e todas as áreas de negócio com um propósito comum, torna-se essencial em um cenário onde a criação de aplicações e agentes de IA se tornou mais acessível. A simples existência de múltiplas iniciativas não garante maior produtividade ou eficiência se a organização não consegue quantificar os resultados associados a elas.

O ROI precisa refletir a realidade de cada empresa

A pressão por demonstrar retorno sobre o investimento (ROI) tem colocado métricas de produtividade e eficiência no centro das discussões sobre IA. No entanto, Telma Luchetta alerta para o perigo de comparar esses indicadores entre empresas sem considerar as particularidades de cada uma. Diferentes níveis de maturidade, modelos de negócio e objetivos estratégicos tornam as métricas universais inadequadas. O que funciona para uma organização pode não ser o ideal para outra.

O desafio, portanto, não é encontrar um indicador único, mas sim definir métricas internas que reflitam com precisão a contribuição da tecnologia para os resultados específicos que cada empresa almeja alcançar. A comparação superficial de percentuais pode distorcer a análise, ignorando as nuances que definem o sucesso de uma iniciativa de IA em seu contexto particular. O foco deve ser na adequação das métricas aos objetivos estratégicos da companhia.

Adoção cresce mais rápido que integração

A disparidade entre a adoção e a integração efetiva da IA nas estruturas corporativas evidencia a magnitude desse desafio. Um estudo da EY, que consultou executivos em 29 países das Américas e da Europa, revelou que 98% dos líderes entrevistados já utilizam alguma forma de inteligência artificial em suas operações. Contudo, quando a análise se aprofunda para avaliar a integração dessa tecnologia aos sistemas e processos corporativos existentes, os números e a percepção de valor mudam drasticamente.

Essa lacuna entre o uso emergencial e a integração profunda sugere que muitas empresas estão experimentando com IA sem, contudo, conseguir extrair todo o seu potencial estratégico. A falta de integração pode limitar a capacidade de automação em larga escala, a análise de dados unificada e a otimização de processos complexos, elementos cruciais para justificar os investimentos em IA e demonstrar um ROI significativo. A jornada da IA nas empresas está longe de ser uma simples implementação tecnológica; é um processo contínuo de adaptação estratégica e mensuração de valor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside