A execução do sistema operacional iOS, da Apple, em dispositivos que não são da marca — algo antes considerado praticamente impossível — tornou-se uma realidade para entusiastas de tecnologia. Essa façanha, que antes exigia anos de desenvolvimento e conhecimento técnico aprofundado, agora é impulsionada pela inteligência artificial generativa, como demonstrado em projetos recentes que adaptaram o iOS para smartphones Android, incluindo o Redmi Note 12.
O Marco Técnico e a Apropriação Tecnológica
Historicamente, o iOS foi projetado para operar exclusivamente em hardware da Apple. A ideia de rodar um sistema operacional em uma plataforma não nativa, seja iOS em Android ou vice-versa, sempre fascinou a comunidade de modders. Projetos como iDroid e Project Sandcastle já haviam demonstrado a viabilidade de executar o Android em iPhones. No entanto, o movimento "Hackios", inspirado na cena Hackintosh (que permite rodar macOS em PCs não Apple), representa um marco ao inverter essa dinâmica.
O Mecanismo por Trás do "Hackios"
O sucesso dessas adaptações se deve, em grande parte, a um projeto de código aberto no GitHub chamado ios-sweet. Essa iniciativa substitui o kernel Linux, padrão em dispositivos Android, pelo XNU, o kernel utilizado pela Apple em seus sistemas. O XNU, cujo código-fonte é aberto, é adaptado com uma "árvore de dispositivos" copiada de um iPhone X. Essa cópia faz com que o kernel acredite estar rodando em um iPhone genuíno. Arquivos não modificados do iOS 16, retirados de um iPhone X, são então carregados e executados sobre o hardware do celular Android.
A escolha do iPhone X não foi aleatória. Ele é o último modelo da Apple que não implementa a autenticação de ponteiros (PAC), uma medida de segurança introduzida posteriormente. Chips como os utilizados na linha Redmi Note, que empregam processadores Qualcomm, não suportam PAC, impedindo que versões mais recentes do iOS funcionem. Essa limitação sugere que a abordagem pode não ser replicável em smartphones mais modernos.
Funcionalidades e Limitações Atuais
Embora o "Hackios" represente um avanço técnico notável, o sistema ainda está longe de ser totalmente funcional. No Redmi Note 12, é possível acessar a tela de bloqueio, a tela inicial, o Centro de Controle e Configurações, com resposta ao toque e botões físicos. Contudo, funcionalidades essenciais como Wi-Fi, Bluetooth, dados móveis, áudio, câmeras e sensores biométricos permanecem inoperantes. Além disso, aplicativos nativos como Mensagens e Fotos exibem telas pretas, e a ausência de um controlador gráfico adequado limita a taxa de quadros para cerca de 20–30 FPS, resultando em tempos de inicialização de 4 a 5 minutos.
O Papel da IA Generativa no Avanço
A inteligência artificial generativa, especialmente Claude, da Anthropic, desempenhou um papel direto na aceleração desse projeto. Segundo a cobertura da Xataka, o repositório ios-sweet inclui instruções específicas para uso com agentes de IA, permitindo que desenvolvedores utilizem modelos como Claude e ChatGPT para gerar código, depurar implementações e explorar adaptações de drivers em um ritmo muito mais rápido do que seria possível manualmente. Essa capacidade de iterar rapidamente sobre código complexo está impulsionando uma onda de inovações em modificação de sistemas operacionais e experimentação com hardware — áreas que historicamente dependiam de comunidades pequenas e altamente especializadas.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





