A inteligência artificial (IA) avança a passos largos, levantando preocupações sobre o futuro do trabalho e a empregabilidade. Ethan Mollick, professor de gestão na Wharton School, autor de Co-Intelligence: Living and Working with AI e uma voz influente sobre o impacto da IA, argumenta que a ideia de que profissões manuais, como a de encanador, seriam à prova de automação é um equívoco. Em entrevista ao Business Insider, Mollick afirma que os modelos de IA estão evoluindo mais rapidamente do que a maioria das pessoas percebe, e que a única forma de navegar essa transformação é aprender a coexistir com a tecnologia.
Mollick destaca que, embora a IA possa não tornar as pessoas desempregadas, ela certamente tornará muitas das habilidades atuais menos valiosas. A chave para a adaptação reside em focar nos atributos intrínsecos aos humanos que a IA ainda não consegue replicar. Ele aponta para quatro áreas que conferem vantagem competitiva em um mundo cada vez mais automatizado: conhecimento profundo, amplitude de saberes, senso crítico (gosto) e agência.
Conhecimento e Amplitude como Escudo
O conhecimento profundo em uma área específica é uma das defesas contra a obsolescência imposta pela IA. Uma expertise consolidada permite que um profissional vá além do que um modelo de IA pode gerar, oferecendo nuances e insights que demandam anos de estudo e prática. Paralelamente, a amplitude de conhecimento — saber um pouco sobre muitas coisas — torna-se cada vez mais valiosa. Em ambientes corporativos, observa-se uma convergência de funções, onde programadores assumem tarefas de design, designers se envolvem em codificação e profissionais de marketing elaboram planos de negócios. Essa interdisciplinaridade, alimentada por uma base de conhecimento diversificada, potencializa a capacidade da IA de auxiliar o trabalho humano.
A IA, em sua essência, é uma ferramenta de automação de tarefas. Assim como as pessoas não sentem falta de lavar louça à mão após a invenção da máquina de lavar, a tecnologia tende a eliminar trabalhos tediosos. No entanto, Mollick alerta que somos falhos em discernir quais tarefas devemos delegar à tecnologia. Essa dificuldade se reflete tanto no âmbito individual, na tendência a buscar atalhos, quanto no institucional, como a proliferação de plágio acadêmico facilitado pela IA. O desafio reside em desenvolver a capacidade de discernimento e aplicação estratégica dessas novas ferramentas.
O Papel do "Gosto" e da Agência na Era da IA
Mollick introduz o conceito de "gosto" — a capacidade humana de discernir qualidade e valor — como um diferencial crucial. Em um cenário onde a IA pode gerar uma quantidade massiva de conteúdo, o "gosto" é o que impede que o resultado seja apenas um amontoado de informações sem propósito ou qualidade. É a curadoria humana, a sensibilidade estética e a capacidade de selecionar o que é relevante e valioso que se destacam.
A "agência", por sua vez, evolui de um simples "aprender a usar IA" para uma gestão mais complexa. O ato de "prompting", antes visto como uma arte mágica, agora se assemelha mais à gestão de projetos: especificar o produto desejado, definir critérios de qualidade, estabelecer métodos de teste e avaliar resultados parciais. Essa abordagem mais sofisticada beneficia profissionais com experiência, que já desenvolveram um senso de julgamento e capacidade de liderança sobre a tecnologia.
Para os recém-chegados ao mercado de trabalho, o desenvolvimento dessas qualidades apresenta um dilema. Como adquirir experiência, "gosto" e agência em um ambiente onde a IA pode realizar pesquisas e redigir relatórios instantaneamente? Mollick aponta para dois problemas interligados: a capacidade individual de aprendizado e a eficácia das instituições educacionais e de formação profissional. Enquanto a educação formal pode se beneficiar da IA como tutora, o modelo de aprendizado prático, através de estágios e mentorias, está em crise.
O Colapso do Mecanismo de Formação Profissional
O modelo tradicional de aprendizado, onde jovens realizam tarefas básicas em troca de experiência e contatos, tem funcionado por milênios. Contudo, as atuais dinâmicas de mercado desincentivam essa prática. Para o funcionário júnior, utilizar a IA para realizar tarefas é mais eficiente do que aprender o ofício manualmente, especialmente quando não se tem o "gosto" para avaliar a qualidade do resultado gerado pela IA. Para os gerentes, a tentação de delegar trabalhos menos atraentes à IA — que entrega resultados superiores a um custo menor — torna a contratação e o treinamento de estagiários menos vantajosos. Líderes empresariais, focados em otimização, veem poucas razões para desacelerar a adoção da IA em detrimento da formação de novos talentos.
Essa ruptura no ciclo virtuoso de formação profissional cria um gargalo perigoso. A falta de um pipeline de talentos pode levar à escassez de profissionais qualificados no futuro. Mollick sugere duas saídas: uma maior formalização da educação continuada, com modelos de aprendizado mais próximos do ensino técnico e profissionalizante, ou um compromisso renovado das empresas com a mentoria como uma atividade estratégica, apesar do custo inicial em produtividade. A alternativa de depender exclusivamente da contratação de profissionais seniores não é sustentável a longo prazo, pois esgota o suprimento de talentos e compromete a inovação.
As implicações desse cenário são amplas. Empresas que negligenciarem a formação de novos talentos podem enfrentar dificuldades de sucessão e inovação. Reguladores e formuladores de políticas públicas podem precisar intervir para incentivar programas de capacitação e mentoria. No contexto brasileiro — onde a informalidade e a desigualdade de acesso à educação de qualidade já são desafios estruturais — a adaptação a um mercado de trabalho moldado pela IA exigirá iniciativas coordenadas entre setor público e privado para garantir que a transição seja inclusiva.
A velocidade com que os modelos de IA evoluem e a capacidade das instituições de se adaptarem são fatores cruciais a serem observados. A coexistência produtiva com a IA, na visão de Mollick, não é apenas uma opção — é o único caminho.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Business Insider





