O avanço da inteligência artificial na geração de vídeos tem sido notável, com produções cada vez mais realistas que desafiam a indústria cinematográfica. A série chinesa "Seedance 2.0", gerada inteiramente por IA, é um exemplo disso, a ponto de gerar reações como a do roteirista Rhett Reese, que lamentou o que pode ser o fim do trabalho para roteiristas humanos. A capacidade de criar vídeos sem a necessidade de estúdios ou animadores humanos, e com maior rentabilidade, coloca a IA como uma ferramenta poderosa para a indústria.
No entanto, o público parece ter uma percepção diferente sobre o conteúdo gerado por IA. O anúncio de Natal da Coca-Cola em 2025, criado com inteligência artificial, gerou protestos e foi interpretado como uma perda de valor, especialmente em conteúdos com forte carga cultural. O dicionário Merriam-Webster elegeu "slop" – termo para conteúdo digital de baixa qualidade produzido por IA – como palavra do ano, estabelecendo uma associação cognitiva direta entre IA e baixa qualidade, mesmo com supervisão humana.
Aposta no Talento Humano
Diante desse cenário, a Apple optou por um caminho distinto em seus recentes anúncios de produtos. A empresa tem investido na criação "quase artesanal" de seus comerciais animados, utilizando artistas humanos. O objetivo é transmitir uma mensagem clara: a valorização da criatividade e do talento humano. Um exemplo notório é o making of de um anúncio de seu serviço de jogos, onde é possível ver a equipe esculpindo e pintando personagens e cenários físicos antes de animá-los quadro a quadro. Essa abordagem não é uma renúncia à tecnologia, mas sim uma estratégia para destacar o valor agregado do talento humano frente à "industrialização" e ao caráter potencialmente clônico da IA.
O Relógio Suíço como Metáfora
A estratégia da Apple pode ser comparada à do mercado de relógios suíços de luxo. Fabricantes como Rolex poderiam optar pela produção em massa, mas o valor intrínseco de seus produtos não reside apenas no custo dos materiais, mas no processo de fabricação artesanal e na produção limitada. Essa percepção de valor foi estudada pelo economista Thorstein Veblen, que em 1899 já analisava como o público atribui valor a bens com base no esforço e na exclusividade, e não apenas no custo de produção. A máquina, por suas criações não terem custo, é vista com desconfiança, enquanto o "bem artesanal" é escolhido pelo consumidor.
A Importância da Pegada Humana
Apple vende essa ideia de autenticidade e esforço. O anúncio do Mac Mini, por exemplo, utilizou argila e a técnica stop motion, demandando nove semanas de trabalho de uma equipe de animadores. A única intervenção digital foi para remover suportes e limpar detalhes. Essa "pegada" de esforço humano é crucial. Um estudo do Journal of Advertising Research sugere que, no mercado de luxo, a autenticidade é diretamente proporcional ao esforço percebido pelo público. Um anúncio gerado por um simples prompt, por mais avançado que seja, não deixa a mesma marca de dedicação. O próprio vice-presidente de marketing da Apple, Tor Myhren, defendeu em Cannes que "o toque humano é nosso superpoder", e a série "Pluribus" reforça isso com a mensagem "Este programa foi feito por humanos" nos créditos finais.
Perguntas no Horizonte
À medida que a produção de conteúdo criativo se torna cada vez mais automatizada pela IA, o valor do "feito à mão" e do talento humano tende a se acentuar. A Apple, com a divulgação de seus making-ofs, posiciona-se não apenas como uma empresa de tecnologia, mas como uma defensora do novo luxo: a autenticidade e a criatividade humana. Resta observar se essa estratégia será suficiente para manter a diferenciação em um mercado saturado e em constante evolução tecnológica. A indústria criativa continuará a navegar entre a eficiência da IA e a busca por um valor intrínseco que, por ora, parece residir na habilidade e na visão humanas.
Source · Xataka





