A inteligência artificial deixou de ser uma mera promessa de eficiência para se tornar um critério de contratação no setor jurídico. Clientes corporativos, segundo um relatório da Thomson Reuters, agora cobram resultados concretos e verificáveis do uso da IA, elevando o padrão de exigência e, em muitos casos, ameaçando a continuidade de contratos. A pesquisa indica que 78% dos clientes consideram essencial o uso de IA para aprimorar a qualidade dos serviços, mas apenas 6% sentem que seus fornecedores atendem a essa expectativa. Essa lacuna de percepção é um alerta para escritórios de advocacia e outros prestadores de serviços profissionais, pois 32% dos clientes pretendem reavaliar seus relacionamentos com fornecedores nos próximos 12 meses, com um terço desse grupo estimando que mais de US$ 1 milhão em contratos anuais estejam em jogo.

O Padrão Elevado da Exigência

A leitura aqui é que a fase de experimentação e adoção inicial da IA na advocacia está se encerrando. Clientes não estão mais satisfeitos em saber que um escritório utiliza ferramentas tecnológicas; eles querem ver o impacto direto no trabalho entregue. Rodrigo Hermida, vice-presidente da Thomson Reuters na América Latina, ressalta que a pergunta central agora é sobre a confiança: se os clientes podem confiar na forma como a IA é utilizada e nos resultados gerados. Isso implica não apenas em maior qualidade e precisão, mas também na garantia de que informações confidenciais e sigilosas sejam tratadas com o máximo rigor. A simples aquisição de tecnologia não basta; é preciso integrá-la aos processos internos e demonstrar como ela alavanca o conhecimento acumulado do escritório para resolver problemas complexos.

A Tensão nos Modelos de Negócios e Precificação

A eficiência proporcionada pela IA inevitavelmente impacta a estrutura de honorários. Se tarefas que antes levavam horas agora são concluídas em minutos, os clientes questionam por que a cobrança por hora deveria permanecer inalterada. A pesquisa aponta que 71% dos profissionais de departamentos jurídicos esperam mudanças nos modelos de negócios e na precificação, enquanto 62% dos escritórios afirmam que a estrutura de preços segue a mesma. Essa discrepância revela um potencial foco de conflito. Escritórios argumentam que precisam recuperar investimentos em tecnologia, treinamento e segurança, além de manter a responsabilidade técnica. Contudo, a demonstração de valor precisa ir além da simples redução de horas, focando na qualidade da análise, na antecipação de riscos e na confiabilidade das informações.

Segurança de Dados e Governança em Xeque

Um dos pontos mais críticos levantados pela pesquisa é a segurança dos dados. Na América Latina, embora 84% dos profissionais jurídicos usem IA semanalmente, apenas 48% têm acesso a soluções aprovadas por suas organizações. Alarmantemente, 34% admitem usar ferramentas não aprovadas, expondo informações de clientes e processos a riscos de confidencialidade e uso indevido. Essa adoção de IA muitas vezes avança mais rápido do que a governança interna, criando lacunas que levam os profissionais a buscar alternativas por conta própria. A responsabilidade pelo sigilo não pode recair apenas sobre o indivote; deve estar incorporada à tecnologia e aos processos do escritório, com políticas claras, controles de acesso e procedimentos de revisão humana.

Pressão no Mercado Brasileiro e o Futuro do Trabalho Jurídico

No Brasil, um mercado jurídico com milhões de processos e advogados, essa pressão por resultados e segurança se torna ainda mais relevante. Dois em cada três profissionais jurídicos na América Latina acreditam que seus escritórios podem perder clientes se não demonstrarem o valor da IA. Essa percepção de risco se estende à atração e retenção de talentos: 26% dos profissionais latino-americanos considerariam deixar seus empregos se a lacuna entre suas necessidades e as ferramentas disponíveis não for reduzida. A tecnologia, portanto, impõe uma dupla pressão sobre os escritórios: atender às expectativas dos clientes e oferecer um ambiente de trabalho moderno e competitivo.

A Thomson Reuters, ciente desse cenário, prepara a expansão de sua oferta de IA para o mercado brasileiro. A nova versão do CoCounsel Legal, integrada ao Westlaw Brasil e ao conteúdo da Revista dos Tribunais, promete aprimorar a pesquisa jurídica, análise de documentos e elaboração de minutas com referências. O desafio para os escritórios brasileiros, e para o setor como um todo, será equilibrar a adoção tecnológica com a robustez da governança e a clareza na entrega de valor aos clientes, garantindo que a IA seja, de fato, uma ferramenta para aprimorar a justiça e não um risco para a profissão.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney