A euforia com a inteligência artificial nas corporações brasileiras contrasta com uma dura realidade: a dificuldade em provar seu valor financeiro. Um novo estudo da consultoria Zappts, o “Panorama da IA no Brasil 2026”, aponta que 55,1% das grandes companhias do país não possuem um mapeamento estruturado do retorno sobre o investimento (ROI) da tecnologia.

O dado, reportado pelo portal TI Inside, é ainda mais alarmante quando comparado à edição anterior do levantamento, quando o índice era de 30,6%. O paradoxo é que essa lacuna na medição se aprofunda justamente no momento em que o uso da IA se expande para além de chatbots e automações simples, migrando para agentes com maior autonomia. A tese que emerge é que, enquanto a experimentação acelera, a capacidade de construir um business case sólido está ficando para trás.

O purgatório da prova de conceito

A dificuldade em quantificar o retorno aprisiona os projetos no que o estudo chama de “purgatório das PoCs” (provas de conceito). Quase metade das empresas (48%) está em fases intermediárias, divididas entre projetos-piloto e implementações em áreas específicas. Enquanto isso, a taxa de companhias que conseguiram escalar o uso de IA em suas operações permanece estagnada em 13,8%, um avanço marginal sobre os 11,3% anteriores.

O gargalo não está na tecnologia, mas na maturidade de negócio para aplicá-la e medi-la financeiramente. Sem uma linha clara que conecte o investimento em IA a uma melhoria no DRE, uma redução de custos ou um ganho de eficiência, os projetos não conseguem o patrocínio necessário para sair da fase de teste e se tornarem estratégicos para a companhia.

De falta de talento a excesso de risco

O estudo revela uma mudança drástica nas barreiras percebidas. A busca por talentos, que já foi o principal obstáculo para 60% dos respondentes em edições passadas, agora é citada por apenas 3,2%. O mercado parece ter superado a fase de escassez de mão de obra técnica para dar lugar a um desafio mais sofisticado: a falta de senioridade para conectar a IA ao negócio.

Os novos vilões são a governança e a segurança. A gestão de uma tecnologia que se dissemina rapidamente (muitas vezes à revelia do TI, no fenômeno conhecido como 'Shadow AI') tornou-se a principal barreira para 13,7% das empresas, seguida por sistemas legados (10,5%). Com 41,9% das organizações admitindo não ter qualquer política de segurança ou ética para o uso de IA, o risco superou a falta de pessoal como a principal dor de cabeça do C-level.

A corrida pela adoção da IA no Brasil gerou um novo desafio, mais complexo que o anterior. A questão deixou de ser "temos pessoas para fazer?" e passou a ser "sabemos o que estamos fazendo, por que estamos fazendo e como isso se paga?". Para muitas empresas, a resposta ainda está no ar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · TIInside