Em uma noite tranquila, Igor Aguiar, um desenvolvedor de 42 anos, decidiu dar um novo visual à sua Amazon Fire TV de 75 polegadas. Noventa minutos e alguns comandos de IA depois, a tela inicial, antes repleta de recomendações de filmes e anúncios, deu lugar a um lançador personalizado, com atalhos para seus apps mais usados e um detalhe peculiar: um calendário litúrgico católico. “Eu precisava de algo mais útil para mim”, explicou Aguiar. “Por isso eu disse, ok, vamos tentar fazer desta uma TV Católica.” Ele não está sozinho. Aguiar faz parte de um número crescente de entusiastas que utilizam inteligência artificial para combater a desordem de software que domina as maiores telas de suas casas. O processo, que pode envolver a ativação de opções de desenvolvedor e a inserção de prompts em agentes de codificação de IA, tem se tornado acessível, permitindo que usuários sem expertise profunda em TVs realizem essas modificações.
A busca por uma experiência mais pessoal
As motivações por trás dessas customizações são tão diversas quanto os próprios usuários. Griffin Cock Foster, um empreendedor baseado em Nova York, transformou os ícones de aplicativos de sua Sony Bravia em livros encadernados em uma estante de madeira falsa, buscando harmonizar a interface com a decoração de sua casa dos anos 1920. Ele também relata que a TV passou a rodar de forma mais fluida após a modificação. Outros buscam simplificar o acesso a recursos e serviços favoritos, especialmente para familiares com menos familiaridade com a tecnologia. Uma parcela significativa desses usuários se viu frustrada com a profusão de anúncios e o rastreamento de dados inerentes à indústria de televisores conectados. Iniciativas como CleanYour.TV e dumbtv prometem não apenas uma nova estética, mas também a remoção de bloatware e a desativação de ferramentas de reconhecimento de conteúdo que geram dados de uso para publicidade.
O modelo de negócios por trás da publicidade
Michael Goodman, diretor de pesquisa de entretenimento da Parks Associates, aponta que a experiência publicitária em smart TVs deixa a desejar. Não se trata apenas de interrupções durante a programação, mas de um modelo de negócios robusto que visa preencher o máximo de espaços na tela com anúncios. “Toda essa publicidade é como os operadores do sistema operacional [OS] ganham dinheiro”, afirma Goodman. Ele ressalta que essa receita se estende além dos desenvolvedores do OS, com diversos intermediários lucrando com a venda de espaços publicitários e a segmentação de anúncios.
Desafios e limitações da customização
Tecnicamente, a personalização de smart TVs sempre foi possível em certa medida, mas exigia conhecimento técnico e compatibilidade de hardware. Por anos, usuários de TVs com Android TV utilizaram aplicativos e ferramentas de desenvolvedor para instalar lançadores alternativos. Fabricantes também ofereciam algum controle sobre recursos de reconhecimento de conteúdo, embora nem sempre de forma intuitiva. A popularização de ferramentas de IA como Claude Code democratizou o processo, reduzindo a necessidade de expertise técnica. No entanto, existem ressalvas. Modelos de TVs com sistemas operacionais proprietários, como os da Samsung e LG, podem ser mais resistentes a essas modificações. Além disso, as customizações podem não persistir após atualizações de software.
Uma nova era de controle sobre a tela principal
A emergência dessa indústria caseira de limpeza e personalização de TVs sugere uma insatisfação latente com as interfaces atuais. Os americanos, por exemplo, passam em média mais de 2,5 horas por dia assistindo TV em 2025, um tempo considerável que pode ser comprometido pela navegação em menus confusos e pela exposição a anúncios. Essa tendência de “vibe coding” — como alguns chamam o processo de adaptar a TV ao estilo de vida do usuário — reflete um desejo por maior controle e uma experiência mais alinhada às necessidades individuais, longe do modelo de negócios focado em publicidade que define muitas plataformas.
O que antes era um luxo para poucos, agora se torna um campo de experimentação para muitos, impulsionado pela IA. A televisão, que se consolidou como o centro do entretenimento doméstico, está sendo reinventada por seus próprios usuários, que buscam não apenas entretenimento, mas também funcionalidade e uma expressão de sua identidade em um dos dispositivos mais presentes em suas vidas. A questão que fica é: até onde essa personalização pode ir e qual será a resposta da indústria a essa nova demanda por controle e personalização?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fast Company





