A agência de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) planeja um investimento de dezenas de milhões de dólares na compra de luvas de choque elétrico, projetadas para subjugar indivíduos durante suas operações. A aquisição, destinada a unidades de investigação e deportação, acendeu um forte alerta entre organizações de direitos civis, especialmente após a análise do manual de uso do equipamento.

Segundo reportagem do site 404 Media, que obteve cópias do manual, o próprio fabricante admite que o dispositivo pode ser letal. A contradição entre a promessa de uma ferramenta de “desescalada” e seu potencial fatal coloca em xeque a proporcionalidade e a ética por trás da militarização crescente das agências de controle de fronteira.

O manual da controvérsia

O documento do dispositivo, chamado G.L.O.V.E. (Emissor de Voltagem de Baixa Saída Gerada, em tradução livre), da empresa Compliant Technologies, é explícito. Afirma que o uso das luvas pode “aumentar os efeitos que podem causar morte súbita”, citando alterações fisiológicas graves como aumento da pressão arterial, frequência cardíaca e adrenalina. O manual instrui que o contato deve ser direto com a pele, evitando áreas como cabeça, pescoço e peito.

Contudo, o protocolo abre margem para interpretações perigosas, autorizando o uso “conforme necessário” caso o indivíduo resista. Enquanto a recomendação de uso é de cerca de 15 segundos, vídeos de demonstração mostram pessoas gritando de dor em apenas um ou dois segundos. A lista de exclusão — idosos, crianças, grávidas e pessoas com deficiência grave — apenas reforça a potência do dispositivo e os riscos inerentes à sua aplicação em campo.

Direitos civis em alerta

Para defensores de direitos humanos, a compra representa mais um passo na escalada do uso de força por uma agência já marcada por denúncias de abuso. O fato de as luvas serem destinadas especificamente às divisões de Investigações de Segurança Interna (HSI) e Operações de Execução e Remoção (ERO), focada em deportações, intensifica a preocupação sobre como serão empregadas contra uma população já vulnerável.

A controvérsia se estende ao fornecedor. O CEO da Compliant Technologies, Jeff Nikaus, já manifestou publicamente visões alinhadas ao nacionalismo cristão, adicionando uma camada de complexidade sobre o perfil ideológico das empresas que fornecem tecnologia de força para o governo americano.

A linha que separa uma ferramenta de contenção de uma arma de punição torna-se perigosamente tênue. A decisão de equipar agentes com uma tecnologia que carrega em seu próprio manual o risco de fatalidade transfere uma responsabilidade imensa para o Estado, que opta por uma solução de força em detrimento de abordagens mais humanas para a gestão migratória.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · 404 Media