A Iguá Saneamento definiu uma estratégia clara para o médio prazo: priorizar o amadurecimento das concessões vigentes para dobrar a receita da companhia. Em entrevista à Bloomberg Línea, o CEO René Silva destacou que, embora o setor de saneamento no Brasil viva um momento de efervescência após o novo marco regulatório de 2020, o foco imediato da empresa reside na consolidação operacional e no ganho de escala em seus quatro blocos de atuação, que atendem seis milhões de pessoas.

O executivo ressaltou que, apesar da ambição de crescimento, a empresa adotará um critério rigoroso para futuras participações em leilões. A estratégia é buscar ativos que ofereçam sinergia geográfica com a estrutura já existente, evitando uma dispersão excessiva que possa comprometer a margem e a qualidade dos serviços prestados em concessões complexas, como a da zona oeste do Rio de Janeiro.

O desafio da eficiência operacional

A operação no Rio de Janeiro exemplifica os desafios estruturais da Iguá, onde o adensamento populacional em comunidades exige uma logística de manutenção e atendimento altamente complexa. Para mitigar perdas físicas e comerciais, a companhia tem investido na digitalização da rede. A utilização de sensores integrados a ferramentas de machine learning e inteligência artificial tem permitido prever vazamentos e otimizar o deslocamento das equipes de campo.

Essa abordagem técnica é fundamental para o modelo de negócio, uma vez que o aumento da receita está atrelado à ampliação da cobertura de água e esgoto em áreas subatendidas. Ao mesmo tempo em que a empresa realiza a manutenção preventiva, ela executa a expansão da rede, incorporando novos clientes ao sistema. Segundo Silva, esse movimento de conversão de ligações irregulares e ampliação da rede é o principal motor de crescimento orgânico para os próximos anos.

Sinergias e o cenário de expansão

O mercado de saneamento brasileiro, impulsionado pelas metas de universalização, continua a apresentar oportunidades, como o programa UniversalizaSP, que visa ampliar o acesso em 146 municípios paulistas. No entanto, o CEO da Iguá enfatiza que a empresa não busca crescimento a qualquer custo. O aporte recente de R$ 700 milhões dos acionistas reforça a confiança na estratégia atual e provê o fôlego necessário para acelerar os investimentos já contratados.

A companhia mantém um olhar atento para blocos que possam complementar suas operações atuais, como em Alagoas. A lógica é clara: a escala é necessária, mas a capacidade de gestão local e a proximidade logística são os diferenciais que garantem a viabilidade econômica dos projetos, especialmente em regiões com características geográficas distintas e desafios de intermitência no abastecimento.

Tensões regulatórias e fiscais

Um dos pontos de atenção para o futuro do setor é o impacto da reforma tributária. O setor de saneamento, que historicamente opera com contratos de longo prazo, enfrenta a preocupação com o aumento da carga tributária. O CEO da Iguá questiona como os contratos poderão ser reequilibrados para absorver esse custo sem penalizar o usuário final, o que coloca um ponto de interrogação sobre a rentabilidade futura de projetos de infraestrutura básica no país.

Além disso, o cumprimento de metas ambientais, como a revitalização do Complexo Lagunar de Jacarepaguá, exige um esforço contínuo de capital e gestão. O sucesso dessas contrapartidas é visto pelo mercado como um termômetro da capacidade das concessionárias privadas em entregar resultados que vão além da simples prestação de serviço, impactando diretamente o ecossistema urbano.

Perspectivas e incertezas

O cenário para os próximos anos permanece dependente da estabilidade regulatória e da capacidade de execução das empresas. A Iguá demonstra que a transição para um modelo mais tecnológico é irreversível, mas a velocidade desse processo dependerá de fatores macroeconômicos e da evolução da carga tributária sobre o setor.

O mercado observará como a companhia equilibrará a necessidade de novos investimentos com a gestão eficiente dos ativos maduros. A capacidade de integrar novas concessões sem desviar o foco da operação atual será o teste definitivo para a estratégia de crescimento da empresa no longo prazo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea