A economia americana vive hoje uma narrativa de dois mundos. Em um deles, os 20% mais ricos sustentam cerca de 60% do consumo, impulsionados pela valorização de seus ativos. No outro, a classe média enfrenta uma compressão estrutural de suas margens. Com salários crescendo 3,2% ao ano e preços subindo 3,4%, o poder de compra real é negativo. Um sintoma disso é o uso crescente de crediário para comprar itens básicos, como alimentos.
Neste cenário, a maioria das corporações americanas responde com um manual previsível: focar no consumidor afluente e repassar a inflação, protegendo as próprias margens. A IKEA, no entanto, rema na direção oposta. Uma análise da revista Fortune aponta a estratégia da gigante sueca de móveis como um contraponto radical e um possível roteiro para a resiliência em um cenário de consumo polarizado.
O manual sueco para a crise
O pilar central da estratégia da IKEA é o que a Fortune chama de “engenharia da acessibilidade”. Em vez de mirar em quem pode pagar mais, a empresa projeta seus produtos e operações a partir do preço que as massas conseguem arcar. “O grande KPI para nós não é o faturamento... é em quantos lares estamos presentes”, afirmou Juvencio Maeztu, CEO do Ingka Group, que controla a maior parte das operações da IKEA. A empresa, segundo ele, busca “reduzir o preço do guarda-chuva quando está chovendo”.
A tática parece funcionar. No ano fiscal de 2025, o grupo absorveu uma queda de 0,9% na receita, para €41,5 bilhões, mas viu o número de visitantes crescer para 736 milhões. O resultado foi um salto de 16,8% no lucro operacional, que atingiu €1,46 bilhão. Para viabilizar preços baixos de forma sustentável, a empresa investe pesado em soberania na cadeia de suprimentos. Um exemplo é o investimento de US$ 70 milhões de um fornecedor em uma fábrica automatizada na Carolina do Norte, nos EUA, para localizar a produção de itens de alto volume e reduzir a dependência de fretes marítimos e tarifas.
Ativos, não custos
A autossuficiência se estende à energia. Para se proteger da volatilidade dos combustíveis fósseis, o braço de investimentos do grupo, Ingka Investments, comprometeu €7,5 bilhões até 2030 em energia renovável. Com dezenas de parques eólicos e solares próprios, a empresa transforma um custo variável e volátil em um ativo fixo e previsível, blindando sua estrutura de custos de choques externos.
O mesmo princípio se aplica ao capital humano. Em vez de demitir, a IKEA usou seu bot de inteligência artificial, Billie, para automatizar tarefas rotineiras de atendimento e retreinar 8.500 funcionários para funções mais complexas, como consultoria de design de interiores. O resultado foi duplo: os centros de vendas remotas se tornaram o canal de maior crescimento, gerando €1,25 bilhão em receita, e a satisfação do cliente subiu de 60% para 89%.
Não se trata de filantropia. A leitura é que a IKEA executa uma estratégia corporativa brilhante para construir um fosso econômico duradouro. Ao otimizar para a massa de consumidores em vez de extrair margens do topo da pirâmide, a empresa aposta no volume como principal motor de resiliência. A lição para outras companhias, e talvez para economias inteiras, é que a sustentabilidade de longo prazo pode depender menos de quanto se cobra e mais de quantos conseguem pagar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





