O investimento em infraestrutura no Brasil alcançou um novo patamar em 2025, totalizando R$ 280,4 bilhões, um recorde nominal na série histórica iniciada em 2010. O crescimento real foi de 3,2% em relação ao ano anterior, impulsionado principalmente pelo setor privado, que expandiu seus aportes em 9,1%, enquanto o setor público registrou um avanço de 1,7%. Estes dados, divulgados pela EY-Parthenon em parceria com a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), revelam um cenário de expansão, mas que ainda mantém o país distante de benchmarks internacionais.
Apesar do volume expressivo, a taxa de investimento em infraestrutura, medida pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), encerrou 2025 em 16,8%, um leve recuo em relação aos 16,9% de 2024. No primeiro trimestre de 2026, o indicador cedeu para 16,5% do PIB. Em comparação, países como a China e o Vietnã destinam, respectivamente, 45% e 30% de seus PIBs para investimentos em infraestrutura, evidenciando o hiato brasileiro.
O hiato de investimento e a necessidade de capital
Gustavo Gusmão, sócio da EY-Parthenon, destaca que, apesar dos avanços recentes, o Brasil ainda enfrenta um significativo "hiato de investimento" em infraestrutura, com gargalos particularmente evidentes nos setores de transporte e logística, e saneamento básico. Para suprir essa defasagem, o país necessitaria investir anualmente cerca de R$ 225 bilhões a mais do que o montante atual, durante um período de dez anos. Gusmão ressalta que o setor privado, embora tenha sido o principal motor do crescimento recente, contribuindo com 80% dos investimentos em 2025 e com projetos substanciais em estruturação, não será capaz de cobrir sozinho essa demanda adicional de recursos.
Essa constatação reforça a necessidade de uma participação pública mais ativa. O executivo sugere que o aumento dos investimentos públicos seja feito tanto por aplicação direta, quanto por meio de mecanismos como concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). A iniciativa privada continuará sendo fundamental, mas a alavancagem de capital público é vista como indispensável para viabilizar a escala de investimentos necessária para reduzir o hiato.
Desafios macroeconômicos e o impacto dos juros
O ambiente macroeconômico global e doméstico apresenta desafios consideráveis para o avanço dos investimentos em infraestrutura. O primeiro semestre de 2026 foi marcado por um cenário de desaceleração econômica global, pressões inflacionárias e incertezas geopolíticas, agravadas por conflitos no Oriente Médio, volatilidade nos preços de commodities e tensões comerciais. No Brasil, embora o PIB tenha mostrado resiliência no primeiro trimestre, crescendo 1,1% em relação ao trimestre anterior e 1,8% na comparação anual, o ritmo de expansão é considerado moderado.
Fatores como juros elevados, incertezas externas e uma maior cautela nas decisões de investimento por parte das empresas limitam o potencial de crescimento. Gusmão aponta que o setor de infraestrutura é particularmente sensível às taxas de juros básicas. O ciclo de aperto monetário impõe barreiras significativas para a realização de novos projetos e a expansão dos investimentos. Para que a taxa Selic possa cair, o mercado aguarda a consolidação das contas públicas e o controle do endividamento governamental, que tem apresentado crescimento.
Implicações para o futuro e o papel do setor privado
A persistência de juros altos e a necessidade de ajuste fiscal no Brasil criam um cenário complexo para a atração de capital privado para projetos de infraestrutura. Embora a participação privada seja crucial e já esteja contratada em volumes expressivos, a viabilidade econômica de muitos projetos depende de um ambiente de crédito mais favorável e de segurança regulatória. A EY-Parthenon, através do Barômetro da Infraestrutura, busca oferecer subsídios para que autoridades e agentes institucionais compreendam os caminhos para impulsionar o desenvolvimento do setor.
O desafio reside em conciliar a necessidade de investimentos massivos com as restrições fiscais e o cenário de juros elevados. A busca por modelos de financiamento inovadores e a otimização dos mecanismos de PPPs e concessões serão essenciais. A capacidade do governo em sinalizar compromisso com a estabilidade fiscal e em reduzir a taxa básica de juros será um fator determinante para destravar o potencial de investimento, especialmente em áreas críticas como saneamento e logística.
Perguntas em aberto e o caminho adiante
Apesar do recorde nominal em investimentos, a queda na proporção do PIB destinada à infraestrutura levanta questões sobre a sustentabilidade e a ambição do atual ritmo de aportes. Será suficiente a participação do setor privado, mesmo com os desafios conjunturais, para mitigar o hiato de investimento? Qual o papel exato que o poder público deve assumir para complementar os esforços privados e garantir a execução dos projetos essenciais?
A queda da Selic e a melhora do ambiente fiscal são condições necessárias, mas não suficientes. A agilidade na estruturação de projetos, a previsibilidade regulatória e a capacidade de execução do Estado serão fatores cruciais a serem observados. O Brasil precisa definir com clareza suas prioridades em infraestrutura e mobilizar os recursos necessários, sejam eles públicos, privados ou mistos, para garantir um desenvolvimento sustentável e competitivo.
O cenário atual, embora positivo em termos de volume nominal, exige uma análise mais profunda sobre a capacidade do país em traduzir esses investimentos em melhorias tangíveis e em um salto de competitividade. A trajetória futura dependerá da habilidade em navegar pelos desafios macroeconômicos e em articular políticas públicas eficazes para o setor.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · TIInside





