Um jovem dança pelas ruas de Paris. Ele evoca Gene Kelly em 'Cantando na Chuva', mas não há chuva, apenas uma alegria que transborda. Este é James Baldwin, aos 24 anos, antes do peso da história e da glória literária. É com essa imagem que o fotógrafo Yashaddai Owens abre seu filme de estreia, 'Jimmy', um retrato filmado em 16mm preto e branco sobre o período em que o futuro escritor deixou Istambul e se encontrou na capital francesa, em 1948.
O longa, que estreou em circuito restrito em Nova York, foge da cartilha da cinebiografia tradicional. Em vez de dramatizar a criação de suas obras-primas, Owens foca no que veio antes: a experiência sensorial. A crítica Lisa Kennedy, em texto para o New York Times, captura a essência da obra ao afirmar que o ator Benny O. Arthur “incorpora Baldwin com um domínio ávido do contemplativo e do corporal”. É nessa dualidade que o filme encontra sua força.
O corpo antes do verbo
'Jimmy' é um filme sobre fisicalidade. A câmera acompanha Baldwin enquanto ele “vagueia, explora parques e mercados ao ar livre”. No seu quarto, ele não está debruçado sobre livros, mas dançando “como um pássaro”. O movimento precede a palavra. A leitura aqui é que Owens propõe uma tese sobre a gênese criativa: a grande literatura não nasce apenas do intelecto, mas da interação do corpo com o mundo. É uma redescoberta do artista como um ser senciente, cujas ideias são forjadas tanto na reflexão silenciosa quanto no caminhar pelas ruas de uma cidade estrangeira.
Essa abordagem é radicalmente diferente das hagiografias que costumam retratar gênios como figuras etéreas. Em 'Jimmy', a inteligência de Baldwin é uma consequência de sua vivência corporal. A escolha pelo 16mm não é um mero artifício estético; a textura do filme confere uma qualidade tátil à imagem, quase como se o espectador pudesse sentir o tecido da cidade junto com o protagonista. O filme constrói pacientemente essa jornada física para culminar no som que anuncia o futuro: o arranhar da caneta no papel.
É nesse momento que o corporal e o contemplativo se fundem. O gesto final não é o do escritor consagrado, mas o do jovem que, após absorver o mundo com o corpo, finalmente começa a traduzi-lo em palavras. 'Jimmy' não nos entrega o monumento, mas o instante frágil e potente de seu nascimento. Ao focar no movimento que antecede a obra, o filme deixa uma questão em aberto: quantas outras histórias de origem se escondem não nas ideias prontas, mas nos gestos que, silenciosamente, as fizeram nascer?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Criterion Daily





